“E o que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira.”

É bem verdade, o que foi não volta a ser, mas é possível continuar a acontecerem coisas bonitas, mágicas e com muito feeling, então no que se refere à arte, podemos sempre escrever numa página branca. Mas se essa página já tiver uns rabiscos de genialidade que nos inspirem, melhor ainda. Acrescentamos e damos continuidade a esse caminho livre.

O surf é, acima de tudo, arte. É isso que nos diferencia de outros desportos. Dançamos com a natureza. Quem não perceber isso nunca será um bom surfista, mesmo que seja atleta das 9 às 5 e sem comer carnes vermelhas.

Ultimamente tenho andado mergulhado no surf dos anos 70 e atribuo essa responsabilidade a 4 pessoas. A história é simples e mostra que a passagem de testemunhos entre gerações dá os seus resultados. O Simon foi falar com o Alby e o Alby disse que sim. O Simon foi falar com o Torren e o Torren disse que sim. O Ishka e o Torren falaram os dois e disseram em coro, embora lá! E a arte aconteceu.

Eu explico melhor. O Simon Jones, habilidoso shaper e crente em pranchas com alma, foi falar com uma das figuras mais marcantes do surf mundial, o Alby Falzon, realizador do filme Morning of the Earth (década de 70) e perguntou-lhe se podia dar o nome do filme às suas pranchas. O Alby disse que sim. E se as pranchas do Simon já eram mágicas, mais mágicas ficaram com o nome Morning of the Earth. Caraças, que ideia brilhante!

Depois temos o Torren Martyn, surfista australiano de gabarito internacional e o seu amigo Ishka Folkwell, realizador e também surfista, ambos de Byron Bay, esse hub criativo Resumindo, o Simon fez as pranchas, o Torren mergulhou nas twins fins e lançou-se às ondas com um estilo e uma leveza que une passado com modernidade, o Ishka gravou tudo e acrescentou imagens e banda sonora de altíssima qualidade, e o Falzon, esse guru de 77 anos que ainda hoje surfa quase diariamente, esteve sempre presente de uma forma Kármica. No fundo ele foi a inspiração para os outros 3.

Não vou escrever mais. Têm que ver. Desliguem o telemóvel e sentem-se em frente a um bom ecrã. A magia vai acontecer.
Boa Viagem!

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses | Com três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há quase duas décadas e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta foi mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

Comentários