Lembro-me, como se fosse hoje, de uma conversa que tive há 20 anos no Panamá, com o Felipe Silveira, um ex-surfista profissional brasileiro e que já por essa altura tinha transitado para uma carreira de gestor na indústria do mar.

O Filipe dizia-me,

Viajei durante uma temporada pela Austrália, onde competi, apanhei altas ondas e conheci um surfista português fora de série que se chamava…

Esperem aí por mais umas linhas. Queriam já saber o nome?

Deixem-me mudar de assunto. Há uma frase que sempre me fez confusão e que era usada de forma recorrente. “ O melhor surfista português de todos os tempos.” Nunca gostei dessa expressão. Expliquem-me o que é ser o melhor surfista? É o que ganha mais campeonatos? O que entra na elite mundial? O mais radical? O melhor em freesurf? O mais consistente? O que tem mais estilo? O mais completo? O melhor tube rider?

E o que é ser o melhor de todos os tempos”? Aquele que foi muito bom no passado? Aquele que foi muito bom no passado e continua a ser bom no presente? Ou aquele que foi tudo isso e, pelo andar da carruagem, continuará a ser bom no futuro? “Todos os tempos” também pode significar a projecção de um futuro, com todas as condicionantes do tempo, como a idade e as dores nas costas, mas a vontade intrínseca de continuar a ser bom e o prazer genuíno de fazer o que se gosta, apenas porque sim. Pode, não pode?

Desculpem-me, mas este sobressalto linguístico sempre me inquietou, porque para mim se houvesse um surfista que fosse considerado o melhor de todos os tempos era precisamente esse que viajou pela Austrália com Filipe e que se destacou no mundo dos melhores. E chamava-se…

Embora lá, será que é desta que vou escrever? Aqui vai, respirem fundo, tomem balanço. Partida! Velocidade, velocidade e zzzzzzzzzzzzzzzzzááássss, ataque de Samurai.

João Alexandre.

Dapin!!!

Não me digam que nunca ouviram falar dele? Se não ouviram, é como se fossem surfistas australianos sem saberem quem foi o Michael Peterson, ou sul-africanos e não conhecerem o Shaun Tomson. E não se desculpem porque começaram a fazer surf há pouco tempo ou ainda são novinhos. Vá lá, deixem-se de merdas.

O Dapin foi durante muitos anos o melhor surfista português! Por tudo! Pela radicalidade, pela irreverência, pelo estilo e pela visão progressista de como abordar uma onda. vvshhhhhhhhhhhh velocidade e arte. Podia ser um sniper, um fotógrafo de guerra um especialista em artes marciais ou um guitarrista sem fronteiras. Era um surfista rock star, com uma legião de fãs que se sentava na praia para vê-lo surfar. Poucos surfistas portugueses conseguiram esse feito. Parar a praia fora de uma competição! Até o gajo das bolas de Berlim parava. Imagino a malta no restaurante Narciso a entornar vinho nas camisas e a engasgarem-se a cada tubo ou tail slide do homem.

Perdoem-me a honestidade e a liberdade de dizer alguma coisa com que podem até não concordar, mas acabaram de me enviar um vídeo do mestre a surfar em 2021 com a energia de antigamente, por isso vou escrever mas vocês podem exclamar.

O Dapin é “o melhor surfista português de todos os tempos”.

(Vídeo de 2016)

 

Para ler mais textos de João “Flecha” Meneses visita o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses | Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

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