Falamos sempre de surf quando estamos juntos. O meu amigo Nicas tem 10 anos e surpreende-me de dia para dia com a sua maturidade. Vejo-me a ceder em assuntos aos quais era inflexível e lá lhe vou oferecendo uma ou outra revista-relíquia que jurei não oferecer a ninguém. Gosto de vê-lo a folhear revistas antigas porque sinto que está a tornar-se num surfista mais completo. Vai encontrando respostas. Vai conhecendo a nossa história.

Eu gostava de fazer aqueles tubos!

Diz-me com entusiasmo, lembrando-se das ondas do recente campeonato nas ilhas Fiji, que o prenderam horas e horas ao ecrã do computador.

E eu sem querer, a traçar-lhe um futuro de aventura. Sabendo que a medicina é a profissão de alguns dos seus familiares, a imaginá-lo numa ONG de médicos surfistas. Ali está o Nicas a usar a sua sabedoria para salvar doentes de malária, dengue, febre-amarela e outras doenças mortais de sítios paradisíacos… a imaginá-lo a surfar as ondas do mundo, Indonésia, Papua Nova Guiné, Filipinas, Libéria. A querer que ajude em troca de umas ondas perfeitas. A esquecer-me da Etiópia, do Sudão, do Uganda ou do Congo. A esquecer-me dos países que também precisam de profissionais com coragem. Que também precisam do Nicas.

E ele fascinado com a minha estória, nem tanto com as ondas mas com as pessoas dessas regiões pobres. Ele, longe de ser um falso altruísta como eu, ou ainda longe ser um surfista apanhado pelo vício de sal no corpo, a fazer-me mais perguntas das doenças e a afastar-se do mar. A carregar a sua maleta de médico e a falar-me de análises ao sangue, medicamentos e tratamentos. A falar-me da cura para o sofrimento.

E eu envergonhado por só pensar em ondas, a sentir-me tão pequeno e a desejar que o Nicas cresça como um surfista que deixa a melhor onda do dia a quem mais precisar dela. Que cresça diferente de mim. Sim de mim. Que distribuí guloseimas e t-shirts aos meninos pobres do Senegal, que deixei pranchas em S. Tomé, que me reuni, ao engano, numa aldeia indiana com gestores- patifes de orfanatos que só queriam ganhar dinheiro à custa dos órfãos do tsunami. Que fiz tudo isso e no fundo sempre com algum interesse. Surfar umas ondas ali por perto. Eu que nunca ajudei ninguém em terras longe do mar. Eu surfista, eu interesseiro. Eu…

Permitam-me um parágrafo para defender o falso altruísta. O surfista, esse mesmo. Sei que estou imerso no objecto de estudo, sei que posso correr riscos de parcialidade mascarado de cientista social. Sei que advogo em causa própria. Mas se vos disser que para o verdadeiro surfista as ondas são uma necessidade básica e é possível enlouquecer com a falta delas. Que o humor é afectado e a família e os amigos pagam caro pela bipolaridade. Que a motivação para trabalhar é menor. Que a cor da pele fica amarelada e que a cama do hospital ou o sofá do psiquiatra entram em contagem decrescente para sentirem o nosso corpo. Sim, se vos disser tudo isso, perdoam o surfista?

Quanto ao Nicas, vejo-o como médico de doenças tropicais. Não daqueles que nunca saíram de uma sala do Hospital Egas Moniz. O Nicas tem coragem para mais! Vejo-o no terreno a ser pago com sorrisos enquanto suaviza dores. Vejo a sua bata branca a roçar-lhe os calções inundados de nódoas de wax e a massajar-lhe os abdominais doridos de tantos esfregões da prancha. Com mestria, segura o estetoscópio e ouve o coração de meninos da aldeia que não morreram de malária e que agora, agradecidos, partilham as praias da sua infância e mostram-lhe as ondas escondidas.

Que nunca o acusem de ser apenas mais um médico surfista, daqueles que só assinam contrato de trabalho com uma cláusula de uma dúzia de ondas ao pequeno-almoço.

E que jamais gritem à sua passagem pelas ruas enlameadas da aldeia:

Lá vem o surfista, o falso altruísta.

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Para ler mais textos de João “Flecha” Meneses visita o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses | Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

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