Mudanças de patrocínios são algo bastante vulgar, especialmente nesta época do ano, mas as mais recentes poderão mostrar uma mudança de paradigma.

A primeira bomba…

Yago Dora, depois de 14 anos na Volcom e mesmo com um título mundial acabado de conquistar, não conseguiu manter-se na marca que é a sua cara. A relação foi atribulada ao longo de 2025 uma vez que o seu contrato acabou em dezembro de 2024 e, à chegada a Portugal, em Março, depois de meses sem chegar a um acordo e sem receber, o “team Dora” resolveu tirar o autocolante da prancha. A decisão teve impacto imediato e quando o MEO Rip Curl Pro Portugal começou Yago já tinha “deal”, com a Volcom Brasil. Dora estava inspirado e venceu em Peniche, começando uma caminhada até ao seu primeiro título mundial. Por norma um título mundial vem acompanhado de um bónus e um aumento para o ano seguinte, mas o brasileiro não teve direito a isso e uns meses depois estava a assinar com uma marca que até há bem pouco tempo era considerada como “menor” que a Volcom, a Vissla. Uma grande vitória para uma marca relativamente recente, mas uma derrota para as “grandes”.

A segunda bomba…

E depois há o caso de Gabriel Medina, que acabou de sair da Rip Curl. Se analisarmos por números, Gabriel tem um seguimento nas redes sociais que é mais do dobro do top5 da WSL todo junto, maior que as grandes marcas de surf todas juntas ou a WSL, John John Florence e Kelly Slater juntos. É seguro dizer que Medina está a tornar-se maior que o surf e especula-se que os seu próximo patrocínio poderá ser fora da indústria ou que poderá apenas virar “full on influencer” e promover apenas produtos. É caso para dizer que opções lucrativas não vão faltar mas dificilmente será “dentro” da indústria.

É caso para perguntar, será que as grandes marcas ainda estão grandes? Quando foi a última vez que se viu uma grande contratação da Billabong, Quiksilver, Rip Curl, O’Neill, Volcom, Vans, RVCA ou Hurley? Griffin Colapinto para a Quiksilver? Já lá vão três anos, e Griff passou da Billabong para a Quik, marcas que na época já pertenciam ao mesmo grupo. Joel Vaughan para a O’Neill? Não se equipara. Nathan Florence para a Florence? Será que “content beats results”? Claramente essa pode ser a tendência. O mundo está “colado” às redes socais e quem tem engagement, tem tudo, especialmente patrocínios.

Seria impensável ver nomes como Italo Ferreira, Frederico Morais, Ryan Callinan, Sierra Kerr e Mateus Herdy tão perto do seu auge deixarem de estar ligados às grandes marcas da indústria para passaram para marcas mais pequenas ou bebidas energéticas, mas aconteceu.

E quem está a contratar?

As emergentes, Rivvia Project, Tenore, Florence, Vissla, Darc Sports (principalmente no Havai), Oxbow (na Europa) estão a contratar e a crescer em visibilidade. Mesmo assim as grandes continuam a dominar o Championship Tour, já que no fim do ano passado todas elas tinham uma presença entre entre os 22 primeiros classificados do tour masculino, com destaque para a Quiksilver com 5 surfistas.

E em Portugal, como estamos?

Bem e mal. Se por um lado temos um surfista como Tiago Stock, campeão nacional de sub20 em título, com vitórias na Liga MEO Surf e no Capítulo Perfeito, mas que (até hoje) não conseguiu preencher o bico da sua prancha apesar de ter todos os atributos que, num mundo normal, seriam muito apetecíveis para qualquer marca de surf. Temos também um António Dantas, que aos 22 anos é o expoente máximo do longboard nacional. Dantas foi o único português a vencer no circuito de qualificação da WSL (2x), conta com dois anos no Longboard Tour da WSL, o equivalente ao Championship Tour no shortboard, e só em 2025 venceu os títulos Europeus da WSL e da ESF. Mesmo assim nunca teve (e continua a não ter) um patrocínio com apoio financeiro de uma marca “core”. Ok, o longboard sempre foi um pouco o “primo pobre” do shortboard, mas mesmo assim estamos a falar um surfista que está a representar Portugal na elite da modalidade. E não nos podemos esquecer de uma Yolanda Hopkins que “comeu o pão que o diabo amassou” até ao seu valor ser tão incontornável que eventualmente preencheu a sua prancha de surf com marcas “core” e endémicas, na recta final a caminho da inédita vaga no Championship Tour feminino.

Mas há alguns casos de sucesso. Surfistas como Miguel Blanco, João Kopke, Francisco Alves, Luís Perloiro e até Pedro Boonman a certa medida, e, noutro patamar, Nicolau Von Rupp, conseguiram encontrar a fórmula para se manter relevantes e patrocinados, muito focados em algum tipo de conteúdo ou representação de uma causa. A estes juntam-se muitos outros nomes a seguir o percurso “clássico”, competidores de destaque na Liga MEO ou QS/Challenger Series que continuam com autocolantes na prancha. Mas esses estão dependentes de resultados imediatos e alguns já se estão a salvaguardar com um backup ligado ao conteúdos também para as marcas que os patrocinam, sob o risco de se tornarem irrelevantes se os resultados competitivos falharem.

E o que se segue? A tendência parece cada vez mais estar do lado de quem acrescenta valor às marcas “all around”. Resultados competitivos para credibilizar, conteúdo para ter alcance e justificar o investimento das marcas. Os orçamentos de marketing estão cada vez mais reduzidos e mais divididos e as apostas das marcas têm cada vez menos margem de erro.

Por outro lado, há coisas muito positivas a acontecer no nosso país. Temos um circuito nacional, a Liga MEO Surf, que é provavelmente o melhor circuito nacional de surf do mundo, com prize money e prémios extra a condizer, o que contribui muito para a viabilidade da carreira de surfista profissional. Temos uma prova do Championship Tour e várias do QS, o que contribuiu muito para colocar o nosso como um autêntico “hub” de surf a nível mundial. Por consequência Portugal foi “invadido” por turistas e surf nomads, que enchem os line ups mas que contribuem bastante para a indústria, investindo em pranchas premium com mais facilidade que os portugueses, pranchas de iniciantes, fatos de surf topo de gama, aulas de surf e muito mais.

O futuro pode ser promissor, mas apenas para quem se souber adaptar…

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