A onda do meu jardim emprestado está viva! Ainda é criança e não perdeu a inocência!

Por vezes é fria e feia escondendo-se na maré enchente. Revoltada! Há uns anos diagnosticaram-lhe autismo e desde então tem vivido fechada num mundo só seu. Sente-se presa com o cachecol de pedras e betão que agora agasalha os seus pés, ela que até nem gosta de agasalhos, tendo como uma das suas paixões percorrer nua as pedras naturais da fajã. Outra paixão é sentir os surfistas no seu corpo.

Podia chamar lhe cínica! Troça de mim e de algumas viagens que faço em vão, das noites em que acordo para a olhar adormecida, das manhãs em que adormeço perdendo-a na maré vazia. Não tenho o direito de adjectivá-la de forma ofensiva, se não acorda é porque não pode…Se não acorda é porque alguém é responsável pelo seu sono.

A onda do meu jardim emprestado conhece de cor todos os homens que lhe deram e continuam a dar-lhe prazer, descendo as suas paredes azuis com sorrisos loucos. Uma paixão sem grandes exigências! Ela promete que aparece de quando em quando e eles prometem que estarão com ela até à última energia de ondulação. Prometem que todos os músculos de um corpo se sintonizam na velocidade do oceano.

A onda do meu jardim emprestado também conhece de cor os homens que a tornaram menos perfeita, aqueles que vivem na ilusão do prazer, que pensam ser importantes atacando a natureza em troca de euros e de marisco importado. Mesmo assim ela não os odeia, mas em alguns momentos de raiva aproveita os dias de tempestade para os salpicar em lágrimas de sal, tendo vontade de os engolir, fazendo-os sentir a dor que tem quando tropeça no cachecol de pedras em cimento.

A aldeia do meu jardim emprestado não viu a onda nascer mas quase que a viu morrer. A onda viu a aldeia crescer e acompanha-a no seu viver! Na sua memória retém toda a história deste pedaço de terra. Conhece as várias gerações de famílias, conhece por ordem todas as casas ali construídas, todas as árvores plantadas, as ruas calcetadas. Sabe de cor os litros de água que descem por segundo das montanhas, o número de alunos da escola primária, os copos de vinho dos jogadores de cartas, os estrangeiros que por ali passaram. Sabe de cor os jovens da terra que vão regressar pelo natal vindos de Lisboa e de outras cidades universitárias do continente. Sente, ri e chora. A onda encarna todos os sentimentos do povo do Jardim do Mar. Ela é mãe dos habitantes, é mãe que os vê crescer, viver e morrer. Ela que até já conheceu a morte de perto e que vai lutando pela vida perpétua. Ela que reza todas as noites à Nossa Senhora do Rosário, padroeira deste jardim.

Se nunca encontrasse a onda do meu jardim emprestado, provavelmente não teria na minha lista de bons amigos o Pedro e o Adriano. Um é citadino do Funchal e o outro jardineiro de gema. Estamos distantes mas estamos tão perto. Eu tenho a distância de um voo de avião, o Pedro de alguns kms em estradas com túneis e montanhas e o Adriano, bem, esse sortudo sorridente, tem a distância de uma descida na rua da sua infância. E ela lá está! Perfeita e imperfeita, dependendo dos picos de autismo.

Hoje, esqueço-me que sou um eterno saudosista e que vejo sempre no passado o prazer do presente. Hoje, depois de sentir que percorri uma das ondas mais perfeitas da minha vida de surfista, começo a acreditar que de quando em quando a onda do meu jardim emprestado é de novo criança, é de novo inocente.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses| Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma excelente colaboração com a ONFIRE.

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