Ross Williams, um havaino com um surf poderoso que brilhou na década de 90 no circuito mundial e hoje treinador do John John, estava na Praia Grande prestes a entrar no seu heat. Eu estava ali por ele, estava ali para confirmar que era verdade o que via nos filmes de surf. Queria medir a altura dos seus leques de água e levar para casa registos de que o power havaiano existia.

O jovem David Luís era o seu adversário. Eu admirava-o, não só pelo seu surf mas por ser da Caparica onde comecei o caminho nas ondas. Mas deixem-me confessar-vos uma pequena maldade, agora com esta distância temporal de quase 20 anos. O meu coração batia pelas ilhas do Pacífico, traía a minha Pátria, eu sei. Jovem cobarde, geria a minha excitação em silêncio, querendo que o meu compatriota perdesse para o meu ídolo. A admiração que tinha pelo Ross Williams era doentia. Os filmes Momentum e Focus tinham sido responsáveis por esse fanatismo. Não me sentia culpado de nada. Estava ali para ver ganhar um dos melhores do mundo.

 

 

O David perdeu a luta mas surfou com uma radicalidade impressionante, ao contrário do homem das ilhas que não arriscou e passou para a fase seguinte do campeonato com um surf apenas competitivo. Durante os cerca de 20 ou 25 minutos em que lutaram na arena de Sintra, o David foi o meu Ross Williams e eu senti-me verdadeiro. Estava ao lado de Portugal! O surf do jovem luso tinha-me conquistado.

Há pouco tempo numa conversa de teclado recordei-o dessa onda. Ficou surpreendido por eu me lembrar desse momento. Nas linhas em baixo podem ver a transcrição. Vou-me referenciar como o traidor da Pátria, porque de facto tinha essa intenção, trair o meu País.

Traidor da Pátria: David, não me esqueço da tua onda no Campeonato da Praia Grande (1997) contra o Ross Williams, um floater arriscado, seguido de um snap e mais uma junção. Está na minha memória e tu estás na história do nosso surf. Fazes parte de um grupo que abriu a porta esta nova geração de surfistas. Acertei nos pormenores da onda?

David: Obrigado. Nunca ninguém me disse isso e sabe bem ouvir! Aterrei de tail do floater e o layback foi bom e terminei seguro. É das que estão cá dentro.

Traidor da Pátria: Estava naquele areal e foste o nosso herói. Exactamente, layback perfeito. Não passaste o heat mas brilhaste.

David: Sim, o Ross depois aniquilou-me (risos). Mas lembro dele a olhar para mim depois dessa onda que abriu o heat. Cenas loucas…

Traidor da Pátria: Não te aniquilou. Fez uma esquerda com uns rasgos e a ti faltava-te outra, só isso. O heat foi teu!

David: Como é que te lembras?

Traidor da Pátria: És responsável por eu não me esquecer. Foi uma onda linda. Não me esqueço dessas. Nunca!

E com este texto David, ficas a saber toda a verdade. No início estava ali por ele, no final saí de lá teu fã e com orgulho na nossa bandeira.

Um abraço

Flecha

Para ler mais textos de João “Flecha” Menses vista o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses| Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

 

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