A marca que muitos conheceram como “Al Merrick”, mas que hoje em dia já responde mais pelo nome de Channel Islands, o seu verdadeiro nome, é liderada há mais de uma década não por Al, que já se reformou, mas pelo seu filho Britt. Este ser humano de quase dois metros herdou alguns dos “sapatos mais difíceis de preencher” de toda a indústria do surf, já que as pranchas do seu pai dominaram o circuito mundial durante décadas através de surfistas como Tom Curren, Kelly Slater, Rob Machado e muitos outros. Hoje podemos assumir que Britt Merrick não só correspondeu às expectativas como as superou. Apesar de lhe faltar um título mundial no curriculum, Merrick venceu algo que poderá ter praticamente o mesmo valor, o teste de pranchas mais conhecido da indústria do surf, Stab in the Dark. Britt não só venceu, como venceu três vezes, sendo o recordista de vitórias do SITD, e está na disputa neste momento por mais um. Curiosamente, este shaper não só já tinha estado em Portugal como já tinha shapeado no nosso país, uma história caricata mas especial que partilhou com a ONFIRE numa das suas passagens recentes pelo nosso país.

Sabemos que já tinhas estado em Portugal e que inclusive tinhas feito algumas pranchas por cá há algumas décadas…
Sim, nos anos 90 eu estava em França e o Tom Curren e ele convidou-me para ir com ele a Portugal e Espanha porque ele ia competir em algumas provas. Na altura ele estava a surfar de Maurice Cole mas teve um heat muito mau numa delas e, quando saiu do heat, em vez de dar autógrafos deu as pranchas a uns miúdos e disse que agora eu tinha que lhe fazer uma prancha. Encontrou-me uma sala de shape algures em Peniche num celeiro. Nem era uma sala de shape mas tinha umas ferramentas e racks então fiz-lhe uma prancha lá e ele adorou e usou-a o ano todo. Encontrei-o recentemente em Peniche e ele disse-me que gostava de ainda ter essa prancha. Eu era muito jovem quando isso aconteceu por isso foi algo especial para mim, estar cá com ele, fazer aquela prancha que ele gostou. Faz de Portugal um sítio especial para mim.

O quão importante é um evento como o (teste de pranchas) Stab in The Dark para uma marca? É algo que se transforma em vendas ou apenas mais notoriedade?
Não é assim tão importante para a marca a nível de vendas, não gera um aumento relevante, mas é importante para nós como pessoas. E quando digo nós, quero dizer toda a gente na Channel Islands que trabalha nas pranchas, design, fibragem, lixa, meter as quilhas. Para nós uma uma validação sobre o bom trabalho que fazemos, e a paixão que temos pelo que fazemos. Para mim, como shaper, vencer o Stab in The Dark é o equivalente a vencer um título mundial mas tem muito mais valor a nível pessoal que em termos de negócio.

Qual é o modelo mais popular da actualidade para a CI?
O nosso best seller dos últimos anos tem sido o Happy Every Day. É uma prancha fácil de surfar, que funciona bem em muitos tipos de ondas, para a maior parte dos surfistas, na maior parte das condições. Também temos a CI 2. Pro e a CI Pro que são o topo de alta performance dentro da nossa marca. É o que a maior parte da equipa está a usar, e a dumpster diver 2.0, que fizemos com o Dane Reynolds, é um modelo que tem tido sucesso.

O que os surfistas do team CI estão a usar é muito diferente do que o que o surfista “vulgar” está a encontrar nas lojas?
Os surfistas de topo estão a usar coisas bastante “únicas”, altamente refinado para o que lhes fazem. É o que devia ser. Na formula 1 os pilotos não estão a usar carros que qualquer pessoa conseguiria guiar. Tudo o que se aprende nessas pranchas para os surfistas de topo é adaptada para o surfista normal. Aprendemos muito sobre rocker, curvas, rail, foil, e aproveitamos tudo o que aprendemos nesse nível de “formula 1” e aplica-se a tudo o que fazemos nos modelos que produzimos. Não será igual ao que eles estão a usar, mas terá os “ingredientes mágicos” que retiramos da experiência que os melhores surfistas têm com as nossas pranchas.

Sendo o filho e sucessor do que é possivelmente o melhor shaper da história, quando foi o momento que sentiste que estavas realmente a dar continuidade ao trabalho que já vinha detrás na Channel Islands?
Eu acho que me vou sempre sentir um pouco na sombra do meu pai. Penso que nunca haverá outro Al Merrick, não sei se alguma vez alguém irá vencer mais títulos que ele ou inovar como ele. Mas para mim o momento que me senti digno de dar continuidade ao trabalho dele foi quando venci o Stab in the Dark, três vezes. Foi uma grande validação do meu trabalho, foi com designs que eu desenvolvi.

Para terminar, o que achas que pode ser a próxima grande mudança no mundo do shape? Já foi tudo inventado e agora é só uma questão de refinar ou ainda poderá acontecer algo drástico?
Já me fazem esta pergunta desde 1990 e o que é certo é que pouco mudou desde aí. Na realidade pouca coisa mudou desde 1955 até hoje. Ainda estamos a usar os mesmos materiais que usávamos nessa altura. Epoxy não é uma coisa nova. E em 1955 estávamos a usar PU com stringer de madeira, como resina poliéster. É a mesma coisa. Houve apenas algumas grandes alterações. De longboard para shortboard, de single para twin fin e depois para trifin. A partir daí foi só refinar. Eu adorava dizer, sim, sim vai haver uma enorme mudança na tecnologia ou design, mas muito honestamente, não acredito. Não há dinheiro na produção de pranchas de surf. Ninguém tem um milhão para desenvolver um foam novo, um fibra nova ou resina. Vamos apenas refinar o que tem sido feito.

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