A qualificação da nossa modalidade para os Jogos Olímpicos sempre gerou alguma polémica, sobretudo devido ao papel que a International Surfing Association tem no processo.
Para quem não sabe, a ISA é uma organização que existe desde os anos 80 e sempre foi o “braço” representativo do surf competitivo não profissional, focado principalmente em provas de selecções. À frente desta organização está uma personagem bastante “colorida”, o argentino Fernando Aguerre, um dos fundadores da marca Reef que “durante décadas, teve como missão transformar o surf num desporto olímpico, algo que acabou por se concretizar em Tóquio 2020 (realizado em 2021).
Se por um lado o formato de competição da ISA encaixa melhor no conceito dos Jogos Olímpicos, por outro, os melhores surfistas do mundo competem na WSL. Isso levou a um “casamento forçado” entre as duas entidades na qualificação para este evento. Pelo meio houve vários “tiros ao lado” e alguns surfistas decidiram retaliar à sua maneira. Foi o caso de nomes como Gabriel Medina, Carissa Moore, Caroline Marks e Tatiana Weston-Webb, que foram obrigados a competir no Surf City El Salvador ISA World Surfing Games em 2021 para manterem as suas vagas. Todos eles dominaram os heats do round 1 e simplesmente não apareceram no round 2, numa espécie de protesto não oficial.
Para os Jogos Olímpicos de Los Angeles (2028), as regras são as seguintes:
– 24 homens e 24 mulheres irão participar no evento, com o máximo de 3 atletas por sexo;
– Os top5 surfistas do Championship Tour a meio de Julho, ou seja, depois do Surf City El Salvador Pro, qualificam-se para os JO;
– 10 vagas serão atribuídas no evento da ISA de 2028, apenas uma por sexo;
– Haverá as “vagas continentais”, uma por sexo, que serão atribuídas nos seguintes eventos da ISA: Asian Games (2026), Pan American Games (2027), European Surfing Games (2027), e as vagas para o continente Africano e Oceânia serão atribuídas no ISA World Surfing Games de 2027;
– WSG de 2026 e 2027, haverá uma vaga por sexo para o comité olímpico nacional;
– Vagas “Universatily”. Haverá uma vaga por género para países que tiveram menos do 8 participantes nos JO anteriores;
– O país anfitrião terá uma vaga por sexo, se não tiveram qualificados pelos eventos acima referidos;
Este sistema acaba por prejudicar os surfistas do Championship Tour, que de imediato protestaram nas redes sociais.
“Desrespeito total pela forma como vocês trataram disto, é mesmo triste para o nosso desporto e para as próximas gerações de surfistas.” – Yago Dora.
“Discordo completamente deste sistema de qualificação. O sistema nas últimas duas Olimpíadas funcionou perfeitamente. Ter 10 surfistas do World Tour da WSL era a melhor forma de garantir que os melhores surfistas do mundo iam aos Jogos Olímpicos. Agora o campeão mundial da WSL em 2027 nem sequer tem presença garantida nos Jogos. Para que fique claro: em nome dos surfistas da WSL, tentámos falar com a ISA para encontrar a melhor solução para toda a gente, mas a ISA não mostrou abertura para trabalhar com os surfistas da WSL. Não acho que este seja o caminho para evoluirmos e tornarmos o nosso desporto melhor — não só para a nossa geração, mas também para as próximas.” – Leonardo Fioravanti.
“A consistência ao mais alto nível é o que define o surf de competição. O Championship Tour da WSL é onde isso realmente acontece, e o caminho de qualificação para os Jogos Olímpicos devia refletir isso muito mais.” – Erin Brooks.
“Uau! E o pior de tudo é a forma como vocês conduziram toda esta situação!” – Filipe Toledo.
“Que desilusão ver isto. Um desrespeito total pelos surfistas da WSL. Gostava que tivessem falado connosco antes de tomarem esta decisão, até porque tentámos reunir convosco várias vezes e vocês cancelaram. Foram tratar disto pelas nossas costas e não deixaram uma linha de comunicação aberta com os surfistas cujas vidas são afetadas por isto. Isto é muito mau para os surfistas e para o desporto.” – Lakey Petterson.
“Desde muito nova que trabalho sem parar para alcançar um dos meus maiores sonhos: qualificar-me para o CT e competir na WSL ao mais alto nível do nosso desporto. Hoje anunciaram um sistema de qualificação que não sinto que esteja alinhado com os atletas. Decisões que moldam as nossas carreiras e o nosso futuro nunca deviam ser tomadas sem uma consideração genuína pela voz e pelo bem-estar dos atletas. Competir nos Jogos Olímpicos também é um sonho meu. No entanto, isso não pode acontecer à custa da justiça, da transparência ou da integridade do desporto. O caminho para os Jogos tem de apoiar o desempenho, a saúde dos atletas e o desenvolvimento a longo prazo — não pode ser guiado principalmente por política ou controlo estrutural. O surf foi construído com base na paixão, na liberdade e no respeito por quem dedica a vida a aperfeiçoá-lo. Acredito mesmo que o desporto tem de continuar centrado nos atletas e naquilo que nos permite dar o nosso melhor ao mais alto nível. Peço, com todo o respeito, mais diálogo, mais clareza e uma verdadeira colaboração com os atletas cujas carreiras são diretamente afetadas por estas decisões.” – Tya Zebrowski.
Além dos surfistas do CT, muitos outros nomes da indústria e mesmo do público têm a mesma opinião, com apenas uma minoria, entre eles a nossa FPS, a defender a decisão da ISA. Algo nos diz que isto não ficará por aqui. Mais novidades em breve…










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