O último dia da última etapa do circuito nacional de 1998 foi, para o surf português, o equivalente ao que o 25 de Abril de 1974 representa para o país: o início de uma revolução que iria mudar tudo…

O circuito nacional de surf era algo muito importante para os surfistas portugueses dos anos 90, sendo apenas superado pelo circuito europeu, o EPSA, já que o WQS ainda estava longe de se tornar algo acessível aos surfistas nacionais em termos de resultados — realidade que só viria a mudar anos mais tarde, com Tiago Pires.

Numa fase inicial, este circuito nacional foi organizado, pela primeira vez de forma estruturada, pela empresa privada “Adrenalina”, acabando, alguns anos mais tarde, por passar para a responsabilidade da Federação Portuguesa de Surf. Apesar de relativamente bem organizado e (inicialmente) com bons prize moneys, o circuito não acompanhava as ambições dos surfistas, e muitos sentiam que faltava transparência na aplicação das verbas atribuídas e imparcialidade no julgamento.

Para tentar fazer frente a esse descontentamento, durante a prova de Aveiro de 1997 foi criada a Associação Nacional de Surfistas, um grupo que representava a grande maioria dos competidores portugueses e que prometia exercer alguma pressão junto da federação para que o circuito estivesse mais alinhado com as expectativas da maioria.

Consta que as primeiras reuniões correram bem e que o núcleo duro da FPS estava disponível para implementar algumas mudanças, mas, com o decorrer do tempo, a relação entre os representantes dos surfistas e a federação “azedou”. Um dos temas discutidos nas reuniões da ANS era a redução dos pontos atribuídos à última etapa do ano, que oferecia o dobro dos pontos e do prize money. A ideia dos surfistas era manter o prize money elevado na última etapa, mas diminuir a discrepância pontual, pois isso podia influenciar demasiado o ranking.

Os detalhes estão hoje um pouco esquecidos, mas é um facto que o calendário de sete provas apresentado no início do ano de 1998 não contemplava a diminuição de pontos que tinha sido proposta, mantendo a última etapa com o dobro da pontuação. O circuito arrancou e José Gregório, o campeão nacional em título, abriu a época com uma vitória na Ericeira, seguido de João Antunes, em Aljezur. Houve ainda uma prova sem vencedor, em Espinho. João Alexandre “Dapin” venceu na Praia Grande e na Costa da Caparica, enquanto Gregório triunfou na Figueira da Foz.

O circuito chegou à última etapa, em Carcavelos, com três candidatos ao título: José Gregório e Dapin, que tinham vencido duas etapas cada, e João Antunes, que tinha vencido apenas uma, mas que tinha alcançado mais finais e, assim, liderava o ranking.

Dapin, caracteristicamente seu, foi o primeiro a cair, sendo eliminado no seu heat de estreia.

No entanto, havia um detalhe importante que acabaria por gerar uma enorme polémica. Dias antes do início da prova, a FPS enviou um fax a alterar as regras, introduzindo a mudança que não tinha aceite inicialmente quanto à pontuação. Cada etapa valia 1.000 pontos para o vencedor, exceto a última, que valia 2.000 pontos. A sugestão da ANS era baixar essa pontuação para 1.200 pontos, mas, através de fax — numa época em que a internet era praticamente inexistente — a federação comunicou que a etapa passaria a valer apenas 1.000 pontos.

Esta alteração acabava por prejudicar principalmente um surfista: Gregório, que, em vez de precisar “apenas” de ficar à frente de João Antunes para se sagrar campeão, ficava com um requisito mais exigente. Não existe uma explicação oficial para esta alteração, mas muitos especularam que poderia ter sido uma forma de prejudicar José Gregório, um dos representantes mais vocais da ANS, que exercia forte pressão sobre um organismo frequentemente criticado pela falta de transparência. Uma ANS mais profissional teria tentado clarificar imediatamente a situação, algo que não aconteceu, e a prova foi avançando.

À final, disputada em ondas tubulares de dois metros, chegaram Tiago Pires, Rodrigo Herédia e os dois candidatos ao título, João Antunes e José Gregório. Cada um dos dois interpretou o regulamento da forma que mais os favorecia: Gregório com base nas regras iniciais e Antunes com base na alteração recente. Nas contas “pós-fax” João apenas precisava que o seu rival não vencesse ou, caso este ganhasse, bastava-lhe terminar em terceiro lugar para conquistar o título. Já nas contras “pré-fax” Gregório precisava de terminar duas posições à frente de Antunes para ser campeão.

A final acabou por ser o “Tiago Pires Show”. Saca já começava a destacar-se no circuito WQS e surgiu na etapa de Carcavelos apenas por ter disponibilidade, uma vez que já tinha deixado o circuito nacional para trás. Ainda assim, venceu a etapa sem grandes dificuldades, deixando Gregório em segundo lugar, Herédia em terceiro e Antunes em quarto.

O resultado era o pior cenário possível para a Federação, pois, consoante a interpretação do regulamento, existia um campeão num cenário e outro campeão no cenário alternativo. Tanto José Gregório como João Antunes saíram da água a celebrar o título com a sua família e amigos.

Na área de competidores instalou-se uma discussão entre o “team Grego”, o “team Antunes” e até entre os próprios dirigentes da federação. Há quem diga que foi alcançado um acordo para analisar a situação com maior detalhe. Certo é que, durante a cerimónia de entrega de prémios — na qual Gregório não esteve presente, em sinal de protesto — o título não foi atribuído a nenhum dos surfistas.

No entanto, alguns dias depois, a FPS anunciou João Antunes como campeão nacional, decisão que José Gregório contestou, chegando mesmo a avançar com um processo judicial. Para a história, o título ficou com João Antunes, mas quem verdadeiramente saiu prejudicada foi a federação, que nunca mais voltaria a organizar uma etapa do circuito nacional com sucesso já que os melhores surfistas do país tomaram uma posição forte depois esta épica “barracada”.

Em breve, a revolução que surgiu após esta etapa…

Nota Importante:
Tanto o corpo técnico como a direção da Federação Portuguesa de Surf e da Associação Nacional de Surfistas foram completamente reestruturados há mais de duas décadas e pertencem hoje a uma geração dirigente que nada tem a ver com os episódios e decisões que marcaram aquele momento conturbado.

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