Depois de dois dias à espera de marés para avançar com os heats primeira prova de surf do mundo pós-confinamento social, no derradeiro dia do Allianz Figueira Pro não foi preciso de esperar por nada, com ondas de sobra tanto na Murtinheira como, mais tarde, no Cabedelo.

O dia começou com a prova feminina, que ainda não tinha avançado qualquer heat e cedo se viu surf acima da média da parte de Teresa Bonvalot, Carol Henrique (agora Carolina Mendes), Yolanda Hopkins, Francisca Veselko e Camilla Kemp. Todas elas chegariam às meias finais man-on-man, excepto Camilla, que ficou de fora por apenas meio ponto.

A prova masculina voltou com o round de 16, onde se viu o melhor surf do evento até aí, 4 super heats carregados de acção. O primeiro grande destaque desta fase foi Luís Perloiro que parece finalmente estar a entrar no ritmo da Liga, tendo na prova anterior, a última de 2019, feito o seu primeiro grande resultado, uma final. Nesta bateria fez a melhor nota da prova até aí e a melhor média para vencer este heat de alto nível, que teve Filipe Jervis em segundo lugar, Pedro Coelho em 3º e Guilherme Fonseca em 4º. Logo de seguida Miguel Blanco fez justiça ao seu estatuto de campeão em título, para vencer também com notas altas, levando consigo Afonso Antunes para a fase man-on-man, eliminando Pedro Henrique e Martim Magalhães.

Os grandes confrontos continuaram logo na bateria seguinte, que juntou os “estabelecidos” Vasco Ribeiro e Tomás Fernandes e os groms Guilherme Ribeiro e Joaquim Chaves. Vasco é o favorito para vencer praticamente qualquer bateria na Liga e mais uma vez mostrou o que valia com duas direitas muito fortes. Mas todos fizeram ondas muito boas, inclusive o quarto classificado, Joaquim Chaves, que fez um par de notas de 7 pontos. No entanto, no fim, depois de várias notas muito fortes, foi o outro Ribeiro, Guilherme, que tinha começado o heat com uma manobra muito forte na junção, quem avançou em segundo lugar, enquanto que Tomás passou em primeiro. Para terminar a fase Frederico Morais fez notas altas do início ao fim, combinando o segundo classificado, Henrique Pyrrait, que eliminou João Guedes e Martim Paulino.

Os quartos de final masculinos ainda se realizaram no mesmo local, antes de passar tudo para o Cabedelo. O primeiro heat foi logo muito forte e muito disputado entre Luís Perloiro e Afonso Antunes. O local de Carcavelos, Luís, abusou nas pauladas de backside, enquanto que o mais jovem da bateria, Afonso, fez grandes snaps de frontside e finalizações fortes. No fim foi Antunes quem lembrou a dominância do seu pai, João Antunes, um dos melhores surfistas que o nosso país já teve, pois virou o heat nas últimas duas ondas, um resultado que podia perfeitamente ter sido inverso. Logo depois foi a vez de Filipe Jervis fazer um dos grandes upsets do dia ao eliminar Miguel Blanco. O 2x campeão nacional fez muito bom surf, mas Jervis provou novamente que, quando está ON, pode bater qualquer adversário na Liga MEO Surf.

Um dos confrontos mais interessantes do dia foi entre dois surfistas da Ericeira, Tomás Fernandes e Henrique Pyrrait. O menos “cotado” dos dois, Henrique, abriu com uma paulada de backside tão forte que, mesmo sendo uma manobra isolada, rendeu-lhe 6.5 pontos. Outra nota semelhante teria garantido a sua primeira meia final mas não conseguiu fazer esse back up e foi Tomás, que fez uma prova exemplar, com manobras muito explosivas em todos os heats, quem avançou. Para terminar a fase Frederico Morais derrotou Guilherme Ribeiro, que mesmo assim fez um excelente resultado e no fim precisava de menos de 8 pontos para virar o resultado.

A primeira meia final feminina foi vencida por Teresa Bonvalot, que fez uma incrível onda de 8 pontos para bater Francisca Veselko. A bateria seguinte foi inicialmente dominada pela campeã nacional em título, Yolanda Hopkins, mas quando Carolina Mendes apanhou duas direitas com boa parede e as encheu de fortes rasgadas acabou na frente com muito mérito.

A primeira final juntava dois surfistas que nunca fizeram uma final neste circuito, Afonso Antunes e Filipe Jervis. Foi o júnior que começou melhor, até Jervis começar a recuperar nos últimos 10 minutos. O seu backside voltou a estar em evidência na sua sexta onda, com três manobras explosivas e muito bem encadeadas para receber uma nota de 6.25. A onda seguinte estava a ser ainda melhor mas Filipe não conseguiu completar a última manobra, mesmo assim recebendo 5.05 que foi o suficiente para passar para a frente. Antunes tinha a prioridade no fim, a precisar de uma nota 5.56 e apesar de ter feito um combo de 3 manobras, tendo a última sido um snap no lip a soltar as quilhas, acabou 0.45 abaixo do requisito e foi eliminado. Frederico Morais abriu a segunda meia final com duas notas altas, 8.50 e 7.25, e apesar de Tomás Fernandes também ser um expert em point breaks de direita, não conseguiu dar a volta ao resultado e também foi eliminado a precisar de apenas 7.86 pontos.

A final feminina foi muito disputada e Carolina Mendes mostrou o seu perigoso frontside para liderar durante muito tempo. Até que Teresa Bonvalot apanhou uma onda com potencial, encaixando três snaps de backside poderosos para, mesmo tendo caído na finalização, receber 8.4 pontos, a liderança e eventualmente a vitória final.

Filipe Jervis era o “favorito sentimental” desta etapa por grande parte dos competidores do circuito, merecendo uma vitória pelo incrível surf que tem apresentado há mais de uma década neste circuito, mas tinha como adversário o melhor surfista português da actualidade nas condições que mais o favorecem, direitas compridas. Frederico Morais simplesmente não deu qualquer hipótese, abrindo o heat com uma onda cheia de manobras fortes e não olhando mais para trás. Filipe teria que fazer o seu melhor surf para voltar a esta bateria e mesmo isso poderia não ser suficiente já que Frederico não parou de fazer notas fortes e acabou por vencer por combinação já em horário de “lusco-fusco”.

E assim terminou o regresso do surf de competição a nível mundial, com um dia épico de surf na Figueira da Foz.

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