Um acontecimento que mudou o surf profissional em Portugal

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Na mais recente edição da ONFIRE (#71) poderás ver uma análise da história do surf profissional desde o início até à actualidade. Mas há mais “peças” importantes a acrescentar neste longo e complexo percurso até ao momento que vivemos na actualidade. Álvaro Costa, proprietário da marca Polen, está ligado à indústria há várias décadas e partilhou com a ONFIRE um dos momentos que, segundo o próprio, foi muito importante neste “trajecto”.

Foi em 1989 que chegou ao nosso país, para trabalhar na sua fábrica como shaper, o surfista brasileiro Almir Salazar. A “Geração de Ouro” do surf português estava em grande ascensão e tinha do seu lado uma técnica de surf muito moderna e uma grande margem de progressão. Mas Salazar, que já era um veterano no surf profissional, tinha uma experiência competitiva muito acima de qualquer surfista português o que lhe garantiu o título do primeiro circuito profissional de surf em Portugal (1992). Esta vitória “feriu” o orgulho nacional mas foi uma grande lição no que toca a competitividade e profissionalismo. Mas a sua contribuição para o surf português começou logo à chegada…

Um momento que para mim foi o início do surf profissional em Portugal foi o dia em que saí daqui (fábrica da Polen) com o Almir Salazar e o João Alexandre “Dapin” a caminho de um campeonato no Porto, que era o Mustang. Isto passou-se no fim dos anos 80 ou início da década de 90 e no caminho o Almir, que já tinha sido surfista profissional no seu país perguntou ao Dapin como era a premiação pois era o seu primeiro campeonato cá e ainda não sabia como se processava. Quando soube que os prémios eram roupa e fatos perguntou qual era a lógica disso pois íamos gastar dinheiro no gasóleo, alimentação e estadia. Ganhavam roupa e iam vender a roupa para pagar as despesas? Onde estava o profissionalismo nesse campeonato? O promotor ia ganhar dinheiro com o evento e os únicos que iam fazer espectáculo, que eram os atletas, iam ganhar roupa?

Depois desta conversa chegámos ao Porto e eles promoveram uma reunião com os outros competidores. Reuniram-se e exigiram uma premiação monetária que não me lembro bem mas deve ter ido tipo 50 contos (250 euros) para o vencedor. Ameaçaram um boicote e os organizadores angariaram um prémio monetário além da roupa e eu acho que foi aí que o profissionalismo português deu o pontapé inicial! Foi quando eles tiveram noção que podiam exigir alguma coisa pela participação em campeonatos. É possível que antes desse campeonato já tenha havido outros com prize money, mas a partir deste tornou-se obrigatório. Começou uma consciência que os atletas tinham de ser profissionais para viver do surf, tinham que ganhar dinheiro.

(Os anos 90)

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