Há alguns anos atrás, não muitos mas os suficientes para que no nosso mercado existissem 3 revistas de surf (não é brincadeira!), a Teresa Abraços organizava umas viagens de surf em parceria com a TAP para destinos pouco prováveis.

Em 2013 recebi o convite para ir à Venezuela com ela, o Justin Mujica (natural de lá) e o Luca Guichard. À partida sabia que não deveria ser um destino de sonho para surfar, já para conhecer não me poderia ter despertado mais vontade de arrancar nesta viagem. O Justin foi à frente para organizar tudo e nós seguimos viagem 1 semana depois, sem previsões de swell nem com a menor ideia do que se iria passar em termos de surf… e noite.

Aterrámos na Isla Margarita, deixámos as coisas no hotel e seguimos para Playa Parguito, o spot mais consistente da ilha e de onde o Justin é local, eu diria que além de local é o rei “daquela merda toda”. Pisámos a areia e lá estava aquele meio metro on shore a quebrar em cima da areia o que realmente desviou a nossa atenção para as caipirinhas que o amigo do Justin nos servia à descrição… o resultado foi um fim de tarde bem regado a álcool, com muito reggaeton e gargalhadas à mistura, que o diga o nosso cameraman (Rui Oliveira) que veio a largar o que tinha no estômago na lateral da carrinha durante a viagem para o hotel.

Recompostos desta recepção era altura de analisar o surf, e na Margarita o Surf passa-se quase sempre naquela praia, a não ser que haja um swell grande que faça funcionar outros picos, coisa que não aconteceu durante a nossa estadia. Nós estávamos a dormir em El Yaque, uma praia bem ao estilo de Albufeira, com dezenas de bares na praia, som a bombar a toda a hora e um consumo de álcool absurdo até às tantas da manhã, dentro ou fora de água, com a agravante de estarmos a uns 45 minutos do surf.

Todos os dias de manhã fazíamos a nossa peregrinação até El Parguito na esperança de apanharmos umas ondas, mas tirando os 3 primeiros dias tivemos de aceitar a flatada e aproveitar a incrível ilha que é Margarita. Dos parques naturais, à hospitalidade dos Venezuelanos, e os incríveis visuais que a ilha tem, valeu tudo a pena, inclusive a falta de ondas, embora tenha dado para surfar quase todos os dias. Do mal o menos, a água é quente e cristalina e os locais, além de surfarem bem, são todos super simpáticos.

 

Passaram 8 dias e estava na hora de arrancar para Caracas, umas das cidades mais perigosas do mundo, rodeada pela Petare, a maior favela da América (3x o tamanho da Rocinha), aqui a pressão aumentou, vindos de uma ilha super tranquila chegamos a um sítio onde constantemente temos de olhar por cima do ombro a ver se o amigo do alheio não nos vem dar os bons dias.

Caracas fica a uns quantos quilómetros das praias mas essas praias são muito inseguras para se surfar, então ficámos a cerca de 30km da cidade, num clube privado com duas praias privativas, marina, restaurantes, ginásios e tudo o que possam imaginar. Basicamente ficámos instalados numa cidade privada com duas praias sem crowd, o difícil era dar ondas (parece que é muito raro).

Acordámos no primeiro dia com o sol a nascer, abrimos os estores e ficámos praticamente estupefactos a ver umas direitas a rolarem na nossa praia privada, seria uma miragem (ainda estávamos a uns 500 metros de distância) ou aquilo estava mesmo a acontecer? Nada como confirmar e uns minutos depois lá estávamos nós a apanhar umas ondas bem curtidas sem mais ninguém, a direita rodava junto a um pontão e abria para a praia, não estava épico mas estava bem curtido e o dia estava ganho.

No dia seguinte arriscámos e fomos a El Caracas, uma praia ali perto com um point break de direitas. Não vos sei explicar a sensação que é andar na Venezuela com milhares de euros em material fotográfico e ter a perfeita noção que tudo pode desaparecer em segundos, bastando para isso cruzarmo-nos com a pessoa errada. Chegámos a El Caracas e facturámos talvez as melhores ondas da viagem, umas direitas de meio metrão, compridas e com algumas junções, crowd praticamente inexistente e água bem quente para não variar.

A 1 dia de partirmos eu estava em pulgas para ir à cidade de Caracas, mas ninguém no grupo queria arriscar tal aventura (é mesmo arriscado) mas depois de massacrar o Justin até mais não, o nosso hermanito lá acedeu em ir comigo jantar à cidade e por lá pernoitar. Obviamente que não aproveitámos quase nada devido aos perigos iminentes, mas deu para beber um copo e pelo menos ter visitado uma cidade que muito dificilmente conseguirei voltar.

Resumindo, não vão à Venezuela pelo surf, mas vão sem dúvida nenhuma à Venezuela por tudo o que ela tem para oferecer. Foi dos países mais incríveis onde estive e que ficará sempre na minha memória, no fim quem sabe até tenham sorte e facturem umas boas ondas, que as há por lá!

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