Foi em 2012 que decidi fazer sozinho uma road trip na Califórnia, há anos que alguns amigos meus diziam que era um sitio de sonho, mas eu teimava em não acreditar. Porém, achei que naquele Outubro, “Sharktober” para os californianos, era o mês de explorar a costa com mais lifestyle que tinha ouvido falar.

 

 

Voei directo a São Francisco com o objectivo de fazer a Highway 1, sempre junto à costa até San Diego. O meu único plano era este, estadias e permanências seriam sempre ao sabor da corrente. Em 2012 o João Macedo morava em São Francisco e prontamente me deu abrigo na sua casa, a 500 metros da praia, durante 3 noites. A casa dele ficava no sítio ideal, a 5 minutos a pé do surf em Ocean Beach e a 30 do centro da cidade de elétrico. Ocean Beach parece que é uma espécie de Praia Grande lá do sitio, quase sempre com ondas pesadas e nevoeiro. No entanto ele fartou-se de gozar comigo a dizer que eu tinha levado a Costa da Caparica comigo, e que bom que foi!! Todos os dias ondas entre o meio metro e o metrão off-shore e um sol que não dava descanso. Queriam melhor? Eu não… além do mais, eu não tinha levado prancha e a única que ele tinha para me emprestar era uma 6’4” single fin. Uma das coisas “estranhas” que notei é que toda a gente se cumprimentava na rua e na água, aqui lançamos olhares de mau e tentamos impor o respeito pela falta de simpatia, lá é exactamente ao contrário! Todos se cumprimentam e é bastante normal termos no line up miúdos de 14 anos e homens e  mulheres na casa dos 60. A cultura de surf é enorme e rapidamente percebemos que cada um está na sua, sem grandes preocupações sobre o que os outros pensam. Daí ser bastante normal vermos em maioria pranchas retro, twins, singles, longboards, ao invés das pranchas de performance. Lá as pranchas são adquiridas para darem gozo ao dono delas, não para ficarem bonitas debaixo do braço no caminho carro/água.

 

Ao fim de três dias em S. Francisco começo a descer para Santa Cruz, pelo caminho vi uns quantos spots com muito pouco crowd, mas eu estava sem prancha pelo que me limitei a fotografar e apreciar o surf. Chegado a Santa Cruz, visitei Steamer Lane, que já foi palco de uma prova do WT. O mar estava pequenino apenas com um surfista na água e a meio da praia, dois longboarders. Santa Cruz é uma cidade pequena mas engraçada, água fria umas surfshops e uns bares porreiros. Chovia muito e não havia ondas, por isso fui ver a casa do Jack O’Neill, que costumava estar na varanda, e fiz-me à estrada para Santa Barbara.

 

 

O caminho é incrível e depois do Big Sur vi a maior concentração de leões marinhos que alguma vez tinha visto, eram tantos que até custava acreditar. Vi também alguns picos sem ninguém e surfáveis, mas o “sharktober” estava sempre presente na minha cabeça. Umas horas depois de ter chegado a Santa Barbara, já estava numa festa privada de aniversário de um dos mais reconhecidos fotógrafos americanos do movimento rap e hip hop, Ricky Powell.

 

Não era suposto lá estar, mas quando disse à porta que era fotógrafo de surf e vinha de Portugal, abriram-me as portas e o bar… Em Santa Barbara fica também a famosa loja da Al Merrick. É um enorme pavilhão com todo o tipo de pranchas que podem imaginar, e como também podem imaginar não resisti a trazer uma, ainda para mais com Rincon ali pertinho para estrear o foguete novo. Rincon estava pequeno mas divertido, o crowd super simpático e deu para curtir umas ondas antes de me fazer novamente à estrada.

 

Na estrada voltei a ver muitos picos com altas ondas, muitos nem percebi como se chegava ao mar, outros não surfei porque queria ir dormir a Venice Beach e comprovar se tudo o que diziam daquela terra era verdade. E sim, é mesmo verdade, é como nos filmes, gajos todos mamados com letreiros a dizer táxi na cabeça, miúdas semi nuas de patins, gajos musculados a encherem à beira da praia, festas de trance na areia, um skate park incrível e lojas de erva medicinal por todo o lado. Venice é outro mundo e vale bem a pena lá passar 2 dias a curtir aquela vibe única.

 

 

Depois de Venice fui parar a Huntington Beach onde o meu amigo, e ex-residente em Portugal, Joe Veselko me esperava para um surf matinal. Fomos directos a Huntington e estavam aaaaltas ondas!! E um crowd do fim do mundo, acabei por ficar a fotografar e eis que vejo um puto que devia ter uns 14 anos ou menos a partir a loiça toda! Aéreos por tudo o que era onda e com uma taxa de finalização quase nos 100%, o puto tinha ar de chinoca e quando cheguei a Portugal fui investigar quem era. O puto era o agora conhecido Kanoa Igarashi, que já há 8 anos atrás tinha um surf incrível. O meu surf nesse dia acabou por ser feito a uns quilómetros a sul de Huntington com o Joe. Estava um bom metrão e éramos só os dois na água, lá como cá, basta só procurar para sermos recompensados.

 

 

San Clemente foi a paragem seguinte, tinha de ver T-Street, Trestles e todos os spots famosos onde as minhas referências de juventude aprenderam a surfar. Trestles tinha altas ondas! Mas estava tão bom de ondas, como cheio de crowd, por isso nem foi opção.

 

Em S. Francisco o Macedo ligou a um amigo Português que vivia há 16 anos em San Diego para me fazer de guia e realmente nada como estar com um local. Valagão, algarvio de gema e excelente surfista fez questão de me fazer sentir em casa e mal cheguei a Wind & Sea fui directo jantar a casa dele com a família e combinámos uma matinal para o dia seguinte em Blacks. Para chegar a Blacks não é fácil e exige uma longa caminhada, mas chegados lá abaixo a praia não desilude. Boas ondas e power era o que nos esperava, crowd aceitável e zero pressão na água. Aí alternei entre o surf e as fotos, fazia umas ondas e saia, vinha à areia buscar a caixa estanque e ia fazer umas fotos, passado um bocado voltava a trocar.

 

Com mais aventuras pelo meio a minha viagem estava a acabar e no dia de thanksgiveng acordo e estavam uma sondas incríveis em Wind & Sea, o spot do Rob Machado. Eu tinha que estar em LA pelo almoço por isso já não surfei. Cheguei a LA no dia em que as famílias todas se juntam, é uma espécie de Natal, por isso mais parecia uma cidade abandonada.

 

 

Voltei para Portugal com uma certeza, esta viagem eu hei de repetir de certeza absoluta e se têm alguma dúvida para que destino hão de ir. Siga para a Califórnia!! A costa mais parecida com Portugal que eu já vi…

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