Em Maio de 2012 o destino escolhido pela Teresa Abraços foi o Gana e a turma que levantou voo além da própria, foi o seu marido Pedro Quadros, o Zé Ferreira e o Miguel Mouzinho. Eu pouco ou nada sabia do Gana e também nada fiz para saber antes da viagem, gosto sempre de viajar com o efeito surpresa do que vamos encontrar.

Accra, capital do Gana é uma típica cidade africana, caótica no trânsito, inacabada nas estradas, vendedores ambulantes nas filas, gritos e buzinadelas. Aterrámos tarde e era quase meia noite quando chegámos ao apartamento nos arredores da cidade. A fome apertava, não havia nada nas redondezas e pedimos ao guia para nos levar a comer a algum sítio. Olhou para nós como quem diz «restaurantes para turistas estão fechados». Pedimos para nos levar onde ele iria àquela hora, sem medos. Arrancámos musseque adentro, por estradas de terra sem iluminação e tascas com gente a beber cerveja. Meia hora depois, sentados numa pedra, a comer uns noodles acabados de fazer por uma senhora numa espécie de barraca com rodas – e a beber uma cerveja fresca – respirámos fundo. «Era mesmo isto!» – foi uma das melhores refeições no Gana.

Gosto sempre de falar com os locais e pelo facto de ser fotógrafo me calhar muitas vezes o lugar ao lado dos condutores lá vou descobrindo algumas coisas sobre os países que visito. Logo nessa noite percebi que não há grandes razões para nos sentirmos inseguros no Gana, o povo é bastante amigável e faz questão de frisar isso… Não gostam de violência! É verdade, andámos por todo o lado sempre tranquilos e sem pressão alguma. Outra coisa que dá jeito é que todos falam inglês e bem. O Gana tornou-se independente do Reino Unido em 1957, mas culturalmente há muitas heranças.

Como o nosso objetivo eram as ondas, saímos de Acra no dia seguinte, fizemos uma rápida visita às boas praias nos arredores da cidade. Fizemos um surf rápido mas fraquinho, on-shore e ondas moles e seguimos directos a Bosua Beach, a praia que ia ser nossa base durante a nossa estadia. Pelo caminho encontrámos simpáticas vilas piscatórias, com carências, mas muito pacíficas e com gente simpática e curiosa. Ser português é um bom cartão-de-visita, principalmente em Elmina. Além de ter um forte mandado construir por portugueses, a vila tem uma considerável quantidade de barcos de pesca por metro quadrado – a maior que já vi na vida.

Estrada acima e eis que, meia dúzia de horas mais tarde, chegamos ao nosso destino. Bosua Beach é uma pequena vila, mais propriamente uma rua. Tem dois resorts, um par de restaurantes e um ou outro bar para beber uma cerveja. É uma vila muito tranquila. A partir das 23h só se vêm cabras e cães na rua e alguns turistas na praia à volta das fogueiras. Bom peixe e lagosta (a preços acessíveis) foram a ementa durante quase toda a estada, com os pés na areia e os olhos no line up. Não são ondas world class, mas houve surf todos os dias, água quente e castanha devido ao rio que desemboca na praia, mas pode surpreender nos dias bons. 500 metros para a direita há uma baía onde parte um point break de direita, vimos aquilo a funcionar uma vez apenas, mas vimos boas fotos de dias clássicos.

Um dos picos que nos falaram era “cape 3 points”, a cerca de uma hora e tal de Bosua, sempre por caminhos de terra, resolvemos ir explorar e revelou-se uma boa surpresa.

 

Imaginem uma baía gigante sem viva alma e com picos espalhados por todo o lado. As rampas fizeram as delicias do Zé Ferreira e do Mouzinho, que rasgaram forte e voaram alto, a Teresa e o Pedro iam tentando a sua sorte numas ondinhas mais perfeitas que intercalavam com as mais pesadas. Surf feito, era tempo de relaxar nas redes estendidas nos coqueiros do eco resort… grandes vidas, fomos felizes e aposto que neste momento todos estaríamos lá num estalar de dedos.

No dia seguinte fomos explorar Akynim, uma aldeia no meio do nada, e o resultado foi incrível. Paramos a carrinha para ver as ondas e num instante estamos rodeados por crianças entre os quatro e os dez anos. Tocam-nos na pele e riem-se sem parar, uma alegria genuína e contagiante no seu estado mais puro. Mesmo em frente à aldeia quebrava uma direita muito fun, crowd? Zero! Parecia de filme e soube-nos pela vida. No regresso ainda tivemos tempo para substituir um pneu furado. No resto dos dias ficámos por Bosua a aproveitar o beach break local e a comer lagosta como se não houvesse amanhã.

A viagem estava a chegar ao fim, por isso nada como uma noite em Acra para ver ao ambiente. O nosso motorista tinha uma irmã que trabalhava numa disco e nos deixou entrar, tipo às 22h… o que quer dizer que éramos apenas nós lá dentro e meia dúzia de prostitutas… dissimuladas mas prostitutas. Por volta da 1 da manhã a disco estava cheia ao ponto de não se conseguir sequer andar lá dentro. Deviam ser cerca de 70% de mulheres senão mais, onde dessas 99% deviam ser prostitutas, obviamente que não usámos os seus serviços, mas que foi uma risada do fim do mundo…. foi.

O Gana, como destino improvável, tem muito para oferecer, da comida às praias, passando pela simpatia do povo. É um país pacifico que, provavelmente, nunca vai estar muito na moda, mas vale bem a visita e quanto ao surf pode-nos surpreender pela positiva.

 

 

 

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