Já lá vão os tempos em que folhear uma revista ou um jornal fazia parte do nosso dia a dia, um hábito que se transformou em algo muito diferente com a entrada em força do digital. No entanto, é inegável que as publicações impressas ainda têm o seu lugar, seria apenas uma questão de se reinventar um pouco alguns conceitos antigos e fazer algo mais adequado ao que o leitor procura actualmente. Surge então o projecto “Salitre” e, para sabermos mais sobre ele, falámos com André Carvalho, um dos grandes responsáveis pelo lançamento anual deste livro que chegará ao mercado em breve…

 

Os produtos em “print” teoricamente estão em queda, no entanto tu lançaste há poucos anos um livro de fotografia e foste um dos que mais lutou para lançar este projecto. Porquê?
Porque como tu disseste e bem “teoricamente” estão em queda, o que não quer dizer que vão desaparecer da face da terra. Vejo o print como uma coisa eterna, que passa de geração em geração. Eu tenho imensos livros herdados da minha mãe, tenho um espólio de livros de fotografia oferecidos pelo meu pai e sempre que posso aumento a coleção. O print não sai da tua vida, fica guardado em casa, os teus filhos podem desfolhar aqueles livros, os teus netos também, só por isso vale a pena lutarmos por ele. Tenho um livro datado de 1982 com uma dedicatória do meu avô no meu dia de anos, há algo mais valioso que isso?
A net é muito engraçada para a caça ao like, mas na verdade não voltas atrás para rever o que foi publicado… os livros vês e revês as vezes que queres. O peso, o cheiro do papel, o poderes ficar parado numa página o tempo que queres à procura de pormenores não tem comparação ao digital. O print abrandou mas não vai morrer.

Como comparas o impacto de uma grande imagem de surf num livro ou revista em comparação com o local onde tem mais visibilidade, as redes sociais?
Acho que não é comparável, também pode ser de eu ser um bocado oldschool, mas alguém consegue apreciar uma grande imagem no instagram? Ou até num site? Para mim tem um impacto momentâneo mas no minuto seguinte já levaste com outra e nem te vais mais lembrar daquela. Há pouco tempo recebi uma “The Surfers Journal” em casa, não há comparação! Abres uma página dupla e ficas a olhar para os pormenores todos, a cor, a definição, a legenda (que podes ler com calma)… para mim são mundos opostos, quanto muito complementam-se, mas não se substituem.

Como foi a receptividade dos patrocinadores?
Para meu espanto foi excelente! A MEO agarrou a oportunidade logo o que nos deixou muito contentes por termos um parceiro que conseguiu ler o mercado. Os surfistas estão ávidos de uma edição de qualidade, actual e independente. Desde que a ONFIRE saiu das bancas que não surgiu mais nenhuma publicação visualmente apetecível e a comunidade quer ter coisas com qualidade. Na verdade isto mudou muito, o público está mais exigente em termos de conteúdos pois as redes sociais fazem grande parte do trabalho que era feito pelas publicações impressas. Neste livro escolhemos as melhores fotos que não têm necessariamente de acção, temos um papel feito a partir de árvores que estão inseridas em florestas sustentáveis, queremos que este produto seja um motivo de orgulho para os fotógrafos, público e patrocinadores. Como temos fotografias de Norte a Sul as camâras municipais aderiram em massa pois sentem-se muito bem representadas. Contamos apenas com uma grande marca, senão a maior, do universo do surf que é a Despomar, depois tivemos agradáveis surpresas como foi por exemplo o caso do Eco Resort Sta Bárbara nos açores que apesar de lá ter apenas uma fotografia quis logo fazer parte do projecto.

Fala um pouco sobre a escolha/razão de ser de cada fotografo…
A ideia de criar um colectivo de fotógrafos andava a atazanar-me a cabeça há um bom tempo… Sempre achei que nós somos uma das peças chaves do desporto, a par com os videógrafos e os Jornalistas. Sem nós quem ia sonhar com ondas perfeitas? Lineups vazios? Manobras impossíveis? Com esta mudança doida do print para o digital continuámos a ser quem alimenta o sonho do surf, mas passámos a ser vistos como os gajos que vão para a praia curtir a tirar umas fotos e que nem precisam de ser pagos para isso. Parece que hoje todos podem ser fotógrafos e não é bem assim. Comecei por fazer uma triagem dos fotógrafos com que mais me identificava e que geograficamente não estivessem no mesmo sitio. Erámos um grupo maior o que não deu bom resultado, então reduzimos para 5 fotógrafos. No Algarve o Brek era incontornável, além de o conhecer há muitos anos, para mim é o fotógrafo com o melhor registo da zona Sul do país, tem uma linguagem própria e tanto fotografa um longboarder como um surfista progressivo ou uma onda vazia, na Ericeira a escolha tinha de recair no Pedro Mestre, um fotógrafo que conheço desde puto e que sempre senti que tinha uma grande vontade de evoluir, além do mais tem sempre material recente para publicar, subimos mas um pouco e noutra meca do surf (Nazaré) desafiei o Hélio António, o único com quem nunca falei pessoalmente, mas bastou umas mensagens via instagram ou whatsapp para ver que além do excelente trabalho é um gajo à séria e sério. Por fim e na parte norte convidei o meu amigo Tó Mané, o norte costumas ficar esquecido em muitas publicações e não queria que isso acontecesse. Por isso a escolha resumiu-se a, diversidade geográfica, qualidade fotográfica e humildade suficiente para convivermos todos enquanto “família”.

Quem mais está envolvido?
Fotógrafos somos 5, Eu, Brek, Pedro Mestre, Hélio António, Tó Mané. Na escrita o Miguel Pedreira e o Carlos Mariano fizeram-nos o favor de escrever 2 belos textos, o João valente fez as perguntas que iniciam o Portfólio de cada um, a ONFIRE faz-nos a primeira entrevista e o Tozé da VERT dá-nos um olho nos textos… Basicamente é esta a nossa família… Mas com tendência a crescer, porque o livro é apenas uma das coisas que vamos lançar. A nossa ideia é juntar pessoal criativo, desde a escrita às fotos, passando pelo vídeo, música e afins. Queremos que a cultura de surf não se resuma só aos campeonatos.

Porquê o nome Salitre?
Na verdade porque é com ele que levamos a nossa vida toda! Ahhahaha
Temos salitre nas máquinas, nos fechos dos fatos, nos carros, na roupa, cabelo pestanas e sobrancelhas… Porque viver com o Salitre não é para quem quer, é para quem aguenta. Queríamos um nome Português ligado ao mar e poucas coisas deixam tantas marcas (para o bem e para o mal) como o Salitre.

Quantos vão ser produzidos, onde podem ser adquiridos e quando estará no mercado?
Vamos produzir 1500 sendo que cerca de 1000 já estão praticamente vendidos (corre para agarrares o teu). Deverá estar no mercado em meados de Julho e pode ser adquirido principalmente na loja MEO Online, no mercado livreiro (Fnac) e através do colectivo. Podem sempre entrar em contacto conosco pelo instagram oficial @salitre.fotografia

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