Zulmiro era uma homem de acção e a vaga de calor fê-lo avançar para o terreno. Chegavam à cidade milhares de turistas por dia e o sentido de oportunidade para ganhar dinheiro antecipou o início da sua carreira como professor. Desistiu rapidamente das aulas de surf em que estava inscrito e nem arriscou tentar o curso de monitores, a nova Lei dos desportos náuticos tinha entrado em vigor e iria dificultar-lhe a vida com a exigência de requisitos credíveis.

O logótipo estava acabado e bem coladinho na carrinha cinzenta, onde se lia Zulmiro Surf School – 25 anos de experiência. O acordo com o restaurante estava a ser cumprido, os bifes com batatas fritas e a sangria barata aguardavam diariamente pelos alunos lixivia neoblanc, que descansavam entre a aula da manhã e a da tarde. No sunset a coisa aquecia. Bebida à descrição com medronho da pior qualidade e acabava-se o dia a treinar o take-off nas dunas, “são como divãs”, enquanto Zulmiro disparava:

-Se conseguirem fazer o drop, já com um jarro de sangria, amanhã será mais fácil na água.

Aproveitava, ainda, para se aproximar das miúdas do grupo com a sua “lábia” de bandido:

Sabes que o surf exige muito de mim, saio poucas vezes à noite, quero apanhar a melhor maré e pouco vento. Gosto de um jantar tranquilo com vista mar. Sou um homem simples. O mar é a minha vida!

E assim ia coleccionando amantes do norte da Europa. E assim construía um currículo em terra e no mar. E assim, mergulhado na mentira, seguia um caminho que acreditava ser de verdade, porque a visão empreendedora falava mais alto e a escola de surf era o seu futuro!

Semanas antes da inauguração da sua Instituição de Ensino, com a presença do seu amigo Presidente da Junta (sócio maioritário do restaurante da sangria rasca), que cortou a fita e disse umas palavras já com um cheirinho a álcool, Zulmiro tinha passado uma semana a estudar minuciosamente algumas escolas de surf. Nessa exaustiva observação reparou que nenhum professor exemplificava como se fazia um take-off dentro de água e jamais arriscava mostrar a técnica de cortar o verde da onda. Apercebeu-se e convenceu-se, de uma forma empírica, que não era preciso ser surfista para ensinar a arte das ondas. O professor empurrava, gritava e aplaudia. Ou aplaudia, gritava e empurrava. Os alunos não eram ensinados a remar, a ler o mar, mesmo que fosse na secção de espuma branca. Era o carrossel da Feira Popular, valia tudo. Zulmiro constatou isso com os seus próprios olhos e, através desse registo, ganhou ainda mais energia para continuar o seu percurso profissional. Afinal não seria o único aldrabão na praia!

Percebeu que estes turistas nunca o questionariam sobre a sua experiência e dificilmente se iriam aperceber de que o nível do professor era inferior ao do aluno. Se não exemplificasse não caía da prancha e também não mostrava a sua remada tosca, comparável à do Patrick Swayze, no filme Ruptura Explosiva.

Zulmiro era um homem realizado. Mas com o passar do tempo, já não sabia quem era. Se actor, surfista ou apenas Zulmiro, mentiroso compulsivo. Um dia dizia que tinha sido competidor no circuito mundial, outro dia big rider no Havai e que detinha o recorde nacional de apneia. O leque de mentiras estava em roda-viva, já não havia controlo, dominavam este individuo que precisava de ganhar dinheiro para beber o verdadeiro e caríssimo medronho algarvio, acessível a poucas bolsas.

O futuro agora era o surf! Se a aldrabice ficasse fora do controlo e estoirasse o mercado turístico, logo se arranjava um novo caminho. O importante é que a mentira proporcionava-lhe uma boa vida. Sol, praia, dinheiro, mulheres e, nada de surf!

A sua mão desceu levemente para as curvas da bela sueca. Empurrou-a com um toque prolongado… gritou e aplaudiu. Saiu da água como se fosse o dono do mundo e dirigiu-se ao bar, ainda de fato vestido.

– Dá-me mais uma mini fresquinha que hoje o dia está a correr bem!

To be continued…

João “Flecha” Meneses

Para ler mais textos de João “Flecha” Menses vista o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses| Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma excelente colaboração com a ONFIRE.

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