O Conselho de Ministros reuniu-se de urgência, o assunto não era para brincadeiras e estava a pôr Portugal nas bocas do mundo pelas piores razões. Nas últimas semanas tinham surgido alguns casos de professores de surf que tinham passado algumas dificuldades em agueiros nas praias da costa ocidental portuguesa. Felizmente não houve vítimas a registar, graças à rápida intervenção dos nadadores salvadores de serviço e de outros surfistas e professores de surf (que também eram surfistas…).

O debate sobre como ensinar os take offs de forma correcta, ou a importância do conhecimento de manobras de rail e de lip para dar bitaites dentro e fora de água, já não era prioritário para a discussão. Agora o caso era mais grave. Dezenas de comentadores da TV, mesmo sem saberem da importância de um bottom turn, inflamavam o discurso que nem papagaios e diziam que só os indivíduos com uma larga experiência de mar podiam ser habilitados a leccionar…pelo menos enquanto Portugal não tivesse uma rede nacional de piscinas de ondas. Aí o cenário mudava e podia haver duas categorias profissionais, os instrutores de mar e os instrutores de piscina.

Nos relatórios da Policia Marítima constavam alguns pormenores surpreendentes sobre alguns náufragos:

– Utilizava braçadeiras de criança debaixo da licra de instrutor;

– Largou a prancha e pôs-se a nadar à cão;

– Chorou durante o salvamento e disse que só estava a tentar ganhar a vida;

– Agarrou-se ao bikini de 1 sueca e disse-lhe Save me please I am not Zézé;

E a notícia com mais impacto dessa semana destacava, espantem-se, o Sr. Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, exímio nadador, como o grande protagonista num salvamento a um homem alcoolizado que esbracejava com a água pelos joelhos e pedia socorro insistentemente. Constava no relatório das autoridades que o individuo em causa estava de cuecas e tinha sido atingido pelas quilhas de uma prancha, provocando-lhe um pequeno corte na nádega esquerda. Ao mesmo tempo que gritava de dor aproveitava os agudos para se dirigir ao cameraman que acompanhava o Presidente na Acção Férias de Verão, dizendo-lhe em forma de insulto:

– Não me filme seu lentinhas, eu só queria ajudar na aula.

Esse homem era Zulmiro! Ele mesmo, aquela personagem da primeira parte da história. O futuro professor de surf que não queria ser surfista tinha tido esta aventura naquela tarde em que decidira que a praia seria o seu local de trabalho e, assim, começava a sua nova etapa profissional, coleccionando cicatrizes para creditar o seu currículo brilhantemente falso.

Na manhã seguinte, Zulmiro inscreveu-se por email numa escola que sabia ter os melhores professores da praia. Tinha como objectivo aprender o básico e de forma rápida para se poder inscrever no curso de instrutor antes que fossem exigidos pré-requisitos sérios que eliminassem na primeira fase os falsos homens do mar. Era uma luta contra o tempo; a proposta de Lei já tinha sido discutida e aprovada na Assembleia da República e aguardava a promulgação por parte do Presidente da República. Marcelo podia ainda propor uns ajustes à Lei, mas era garantido que seria sempre para aumentar a exigência nos pré-requisitos, jamais para facilitar, pois ele próprio testemunhara a inexperiência de alguns instrutores.

Entretanto, Zulmiro conseguia a grande custo sacar os primeiros take offs e sempre que caía na parede da onda, embrulhando-se “na espuma branca que lhe lembrava neve fria”, levantava-se animado e perguntava ao Professor:

Eu mandei um túnel, não mandei?

Os professores não queriam acreditar no que viam e ouviam, mas de uma coisa tinham a certeza, se Zulmiro quisesse tornar-se num verdadeiro surfista, tinha que mergulhar num túnel de humildade, dedicação e responsabilidade para que pudesse vislumbrar alguma luz pelo longo caminho de aprendizagem que o esperava.

To be continued…

João “Flecha” Meneses

Para ler mais textos de João “Flecha” Menses vista o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses| Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma excelente colaboração com a ONFIRE.

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