O francês Nelson Cloarec, o australiano Micah Lester e o basco Adrian Fernandez de Valderrama passaram 10 dias algures nos confins frios do Norte da Europa à procura da perfeição. Isto é a sua história.

Palavras por Sharpy  | Photos por Tim Nunn & Sharpy

Na era moderna, temos super computadores nos nossos bolsos. Computadores mais potentes do que os que foram usados para enviar o homem à lua. Dispositivos a partir dos quais podemos acessar o mundo. Podemos reservar voos, falar em directo para amigos em qualquer parte do planeta, manter-nos informados das novidades, rastrear tempestades e previsões de surf com facilidade … Enquanto tivermos sinal.

Ter toda a informação no mundo ao nosso alcance nem sempre é uma coisa boa. Especialmente quando se trata de planear viagens de surf ao Norte da Europa. O Atlântico é imprevisível e organizar uma photo trip em que os surfistas e fotógrafos precisam de convergir de todo o mundo para fazer “doce ouro visual” é um grande desafio.

Previsões de longo alcance ficam com bom aspecto durante dias e, de seguida, tudo muda. Preços dos voos aumentam. Janelas de disponibilidade mudam diariamente. Surfistas profissionais têm de se manter ocupados. Se eles não estão a competir, fotografar ou treinar, então não estão progredir.

Fazer esta viagem acontecer não foi tão simples como dizer “Olhem! Estejam aqui nesta data.”
As áreas de interesse requeriam um conjunto muito específico de condições e a viagem seria um flop se não fossem cumpridas.

Felizmente, o “on/off”, on de novo, off de novo, reservar voos, reorganizar vôos e finalmente avançar, ficaram a cargo do fotógrafo de serviço Tim Nunn e do Jan, o tipo da O’Neill.
Eu apenas tive que me juntar com o resto do grupo e pressionar o grande botão vermelho na câmara de vídeo, para gravar a acção.

Depois de muitas falsas partidas, graças às estranhas condições da primavera pós-El Nino Europeu, a viagem estava finalmente on. Surgia uma janela de dez dias com bons indicadores em todos os aspectos. Ventos fracos, boa direcção de swell, sem chuva. Estávamos cheios de esperança de apanhar algumas sessões de loucos.
Alguns dias mais tarde três surfistas estavam em aeroportos de três países diferentes e dois fotógrafos guiaram por dois dias para convergir com eles … bolas, tanta bagagem.

Com um ar de “Blue Steel”, Micah foi o primeiro a chegar e vinha de um aeroporto de uma cidade grande. Ele vinha do Havaí, onde passou a viver, apesar de ser de Burleigh Heads na Gold Coast originalmente. O sortudo.
Ele tinha o que aparentava ser a gripe suína. O que é um pouco irónico uma vez que ele “voou” do outro lado do mundo para esta missão. Enquanto estávamos a carregar sua capa com as pranchas ele estava de joelhos, no parque de estacionamento, aparentemente, a tossir um pulmão.
Ao fim de uma hora de estar no carro com ele eu também já tinha a gripe. Obrigado Micah. Não estava contente. Nem uma sessão tínhamos feito e dois de três de nós já estavam às portas da morte.

O Nelson e Adrian apanhámos horas mais tarde já noutro aeroporto e logo descobrimos que três prós e dois fotógrafos não iam caber em apenas um carro. Não importava o quão bem nós organizávamos as coisas. Um carro de aluguer mais tarde e estávamos de volta à estada, por muitas horas, mas deixando as conveniências modernas, como recepção nos telefones, para trás.

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Tínhamos planeado acampar durante parte da viagem, visto que era o final da primavera, mas o tempo fora de época estava fora de controle. Uma temperatura de zero graus durante o dia e negativa à noite não faria de acampar algo divertido. Surfistas hipotérmicos não são as coisas mais fotogénicas. Eles não têm bom desempenho e tendem a reclamar sobre o gelo nos seus fatos. Fotógrafos congelados tendem a reclamar por causa das baterias e odeiam acampar devido à falta de tomadas de electricidade. E vínhamos equipados para acampar na primavera, não para inverno profundo.

O nosso gráfico cheio de esperança e bons tempos, como é natural, evaporou-se no segundo que chegamos. Esperávamos estar a saltar directamente para boas ondas no dia seguinte. Não o fizemos. O que parecia tão bom era agora um vendaval em terra e neve. Às vezes, ser capaz de ver previsões meteorológicas actualizadas a cada poucas horas é uma maldição. Um destruidor de esperança. Nos velhos tempos, acordávamos e olhávamos pela janela. Agora sabemos com praticamente 100% de certeza se os próximos dias vão ser uma treta.
A decisão de obter um lugar feito de tijolos, ao contrário de lona, para as primeiras noites foi sábia. Mas mesmo dentro dos velhos muros de pedra da casa estava frio, até que descobrimos como o aquecimento funcionava.

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Quando estás longe de casa e as ondas não estão boas, o terreno torna-se propício para fazer alguma exploração. E foi o que fizemos. Guiámos horas fora da costa. Cantos e recantos explorados e praias abrigadas do vento são difíceis de chegar, mas somos também removidos da civilização. Sem um veículo com tracção às quatro rodas, ou um helicóptero, não podemos senão questionar. Vias individuais deram lugar a pistas de terra e, eventualmente, campos. Graças às maravilhas de mapas de satélite acessadas através dos computadores de bolso, poderíamos dizer que estávamos milhas de distância.
Ficámos maravilhados com estradas vazias, aldeias tranquilas, ruínas tombadas e montanhas cobertas de neve. Fomos conversando com cada lojista de vila, sempre espantados por terem um visitante verdadeiro da Austrália.
Encontrámos alguma diversão em beach breaks. Um deles, era dar-lhe algumas horas de maré e seria divertido. Esperamos por horas. Ficou divertido para cerca de vinte minutos, em seguida, a maré ficou muito alta. Inconstante não é a palavra. Mas, depois de todos os voos e milhas de estrada, era bom molharmo-nos em água cristalina. Mesmo que fosse diversão em ondas pequenas. E mesmo estando frio, pelo menos estava ensolarado. No primeiro dia, pelo menos…

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Quanto maior a latitude em que nos aventuramos na Europa, o mais selvagem e imprevisível fica o tempo. Se o surf é difícil prever, o tempo igualmente difícil.
Claro, em França, Espanha e Portugal poderás receber boas tempestades. Mas é uma variação entre quente, morno, agradável e talvez um pouco de chuva. A menos que estejas nas montanhas. As latitudes mais altas são muito mais esquizofrénicas.

Todo o crédito para os surfistas, se houve uma onda “navegável”, mesmo no meio de uma tempestade feroz com chuveiros de neve e/ou granizo, eles estavam lá.
Então o sol sairia. E tu sentias o toque do calor da primavera na tua pele e esquecias o turbilhão. Até que ele aparecia novamente. Aí tinhas de correr e esconder.
Uma semana de esquiva do mau tempo e pouco surf é a receita para o desastre moral. Algumas viagens podem sair dos trilhos, como a lareira acolhedora dos pubs e as afirmações cada vez mais desesperadas de, “deverá estar bom amanhã … espero”, caiam em saco roto. Muito depende do calibre dos surfistas.

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Micah é um veterano nestas andanças, ele já anda a viajar o mundo em busca de ondas há mais de uma década, desde os trópicos até o Círculo Polar Árctico. Ele sabe como é. Sabe aproveitar os bons tempos. Fazes o teu melhor durante os maus momentos. E ganhas interesse em cervejas artesanais para um nível “trainspotter” e fazes da cultura local o teu gosto. Porque, quem sabe se vai estar a “bombar” de manhã. Mesmo que cada previsão “grite” o contrário.

Nelson e Adrian são groms. Surfistas em ascensão mas com cabeças antigas nos seus ombros. Totalmente profissionais, no entanto. Como Micah, sabem aceitar alguns socos no queixo. Desfrutavam de um lugar novo, novas experiências, ver a configuração da terra como um bom swell pode, eventualmente, transformar-se. E graças a Micah, provavelmente agora são membros da campanha do Real Ale em seus respectivos países.

Estávamos a chegar ao final de nossa viagem. A ventania tinha-se aguentado durante a maior parte do tempo. A neve, finalmente, deixava-nos. Não tínhamos vídeo ou páginas de revista garantidas. Nem perto. No último dia voltámos a ter esperança. Parecia estar a chegar um pequeno swell e ventos fracos … finalmente. Dois de três, mas a maré estava errada. Teríamos que esperar horas.
O que é todos os tipos de cruel. Tendo suportado nove dias de tentar e falhar e sendo empurrados e insultados pelo tempo em cada trajecto, tudo parecia condenado ao fracasso. O vento mudaria antes temos uma hipótese. A esperança tinha desaparecido.

A tempo mexeu-se devagar essa manhã. Ocupamo-nos a fazer as malas para a viagem de volta para casa no dia seguinte. Um fragmento de esperança persistia, mas a chama começava a apagar-se.
“Talvez haja algo surfável”
“Poderá haver secções para dar umas curvas e uns aéreos, se tivermos sorte.”

Eu já não aguentava e sugeri que fossemos ver e esperar pela maré nas próximas horas, uma vez que já estavam 5 graus em vez de zero, e não chovia.
O Micah conhecia o pico pois estava há uma década a tentar surfá-lo e não estava numa de ir. Estaríamos a olhar para as rochas. Estaríamos a observar o movimento imperceptível da maré ou poderíamos estar a ver a tinta a secar em casa. Mas ele cedeu à nossa esperança, aos olhos de cachorrinho dos mais novos, e fizemo-nos à estrada.

E ainda bem o que o fizemos. A saberia à volta de alguns spots é curta e com todas as variáveis em jogo a sabedoria nem sempre está certa. O Nelson achou que estava surfável ao fim de uma hora de inspecção. O slab estava coberto, pelo menos. Por isso fomos surfar. Cinco tubos secos mais tarde e qualquer conversa de “devíamos esperar pela maré certa” foi esquecida e o Adrian e Micah estavam no stress de vestir fatos, meter wax e quilhas.

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A sessão que seguiu foi linda. Três surfistas que só se tinham conhecido nesta viagem, a surfarem à vez e a fazerem tubos atrás de tubos num slab bem fundo no azul do atlântico. Três surfistas a gritar, rir e a dar murros no ar quando alguém era cuspido.

Não foi sem preocupações, qualquer queda era uma visita ao reef e uma escapadela arriscada enquanto mais uma onda estava pronta para te cair em cima. Tudo o que se podia fazer era escapar para a espuma e rezar para ficar intacto. Por alguma razão, todos sobreviveram. Como disse Adrian, “não há pranchas partidas e estamos todos vivos. Isso é muito bom!”

Tínhamos conseguido. Uma surf trip que escapou por pouco do desastre. Não foi fácil mas mantivemos a esperança e fomos recompensados. Os bons tempos vieram por eles.

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E quando aos dias sem ondas, os quilómetros de procura, as esperas nos aeroportos, as frustrações e esperanças, terão valido a pena? Bom, como disse o Nelson, “foi uma das melhores sessões da minha vida…”

E isso é tudo o que se pode esperar de qualquer viagem.

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