Selecionador Nacional, David Raimundo, reflecte sobre o dia das decisões no ISA World Surfing Games || Parte II

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Selecção Portuguesa após vitória de Carol Henrique. Photo by ISA | Jimenez
Selecção Portuguesa após vitória de Carol Henrique. Photo by ISA | Jimenez

Esta é a segunda e última parte de uma entrevista exclusiva ao responsável por Portugal se sagrar vice-campeão mundial durante o ISA World Surfing Games. Depois de leres aqui sobe os primeiros dias da selecção nacional e sua equipe na Costa Rica, David Raimundo conta-nos agora como foram os mais importantes momentos da selecção no dia de todas as decisões.

O último dia foi muito complicado para Portugal com Bonvalot, Henrique e Fonseca a irem parar às repescagens. O que pensas que correu mal nestes primeiros heats? Realmente o último dia foi um dia difícil para Portugal. Depois de sete dias brilhantes, as coisas não nos saíram como desejámos. Partimos na frente no Domingo, mas era uma liderança provisória. Também é importante realçar, que ao sermos a única equipa com três atletas, também éramos os que podiam perder mais pontos. E foi o que aconteceu. Acho que nem cometemos erros graves neste dia, apenas estivemos fora do timing das ondas boas. Os nossos adversários não cometeram erros e nós não conseguimos recuperar. Há dias que as coisas simplesmente não acontecem, e este foi um deles. Mérito total para os nossos adversários.


 

“(…) queríamos mesmo ser campeões do mundo! Demos tudo o que tínhamos e o que não tínhamos para o conseguir. Eles estavam todos contentes pelo resultado mas… ficou um sabor amargo no final.”


 

Bonvalot, que estava a ser provavelmente o grande destaque do quadro feminino, sofreu depois uma pesada derrota nas repescagens. A inconsistência do mar em nada ajudou mas as francesas pareceram adaptar-se melhor às condições movimentando-se mais para o inside. Teria sido esta a altura certa para mudar a estratégia que até aqui tinha garantido o grande sucesso da seleção – esperar as melhores ondas? A Teresa fez um campeonato imaculado. Esteve quase perfeita. Começou a final com a melhor onda do heat e apanhou logo outras duas de seguida que não cooperaram. Quando voltou a ter a segunda prioridade, apenas entrou uma onda que foi para a Dominic virar o heat. Na última bateria com as Francesas, mais uma vez elas estiveram com um timing melhor do que a Teresa. Não havia muito a fazer. Poucas ondas e a Teresa a correr atrás do prejuízo. Importa realçar é a qualidade do campeonato que ela e a Carol fizeram.

Teresa Bonvalot esteve brilhante durante toda a prova e só "caiu" quando as condições se tornaram muito escassas. Photo by ISA | Jimenez

Teresa Bonvalot esteve brilhante durante toda a prova e só “caiu” quando as condições se tornaram muito escassas. Photo by ISA | Jimenez

Qual foi a estratégia para o último heat de repescagem dos Homens? E o que pensas que faltou para conseguirmos colocar pelo menos um português na finalissima? A estratégia era começar o heat com prioridade sobre a esquerda, que era a onda com mais potencial. E foi o que aconteceu. Mas mais uma vez não conseguimos usufruir dessa pequena vantagem. Começámos com ondas fracas e os nossos adversários muito fortes. Eles sabiam que para termos hipóteses de sermos campeões, pelo menos um deles tinha que estar na grande final. E eles estavam preparados para abdicar de um resultado individual para um fim maior. Deram tudo o que tinham! Não era o nosso dia…


“Disse a cada um deles, cara  a cara, que deviam estar super orgulhosos do que conseguimos fazer! Foi excelente!”


 

Quando se aperceberam que tinham conquistado o segundo lugar? Nós, desde o primeiro dia, que controlávamos tudo o que acontecia a nível de resultados na prova. Tínhamos um ficheiro de Excel feito e actualizado todos os dias pelo Vice presidente da FPS, Artur Ferreira, com os pontos potenciais, projeções de pontos e outros aspectos, que eram uma ferramenta muito útil para nós. Só soubemos que tínhamos ficado em segundo lugar, quando o speaker anunciou as últimas ondas da final masculina. Se o Noe Mar ganhasse ficavam à nossa frente… mas se fizesse segundo ou pior erámos vice-campeões! E foi o que aconteceu!

PORTUAGL! Photo by ISA | Jimenez

PORTUAGL! Photo by ISA | Jimenez

Como é que foi gerir o lado psicológico dos surfistas após a noticia de um segundo lugar, sem dúvida um excelente resultado, quando se fez um evento praticamente perfeito até à final? Depois de tudo o que conquistámos ao longo da semana, queríamos mesmo ser campeões do mundo! Demos tudo o que tínhamos e o que não tínhamos para o conseguir. Eles estavam todos contentes pelo resultado mas… ficou um sabor amargo no final. Disse a cada um deles, cara  a cara, que deviam estar super orgulhosos do que conseguimos fazer! Foi excelente! Era possível mais? É sempre possível fazer mais quando não ganhamos. E a coisa boa é que assim temos ainda mais vontade para tentarmos lutar por tornar este sonho realidade!


 

“Tudo começou quando criei o nosso grupo privado de WhattsApp com o nome: “ISA 2016: RUMO À VITÒRIA”! A primeira coisa que lhes disse foi se acreditavam que era possível serem campeões do mundo. E depois se se conseguiam imaginar a levantar a taça de campeões do mundo.”


 

E como é que o selecionador lida com esse lado que é por um lado um grande feito mas por outro também tem de haver aquela sensação de “foi por pouco”… Foi por pouco mas ainda não foi desta. Na minha primeira entrevista que dei como selecionador nacional, disse que queria ser campeão do mundo. Muitos se riram e gozaram comigo. Eu acredito que com trabalho é possível atingir esse objectivo. Tenho a perfeita noção que não é uma tarefa fácil e que até pode nunca vir a acontecer. Mas agora acreditar nisso? Claro que acredito! E vou trabalhar ao máximo para que isso aconteça! Se eu não acreditar, como é que os meus atletas vão acreditar?

Eduardo Fernandes foca-se para mais um heat. Photo by ISA | Jimenez

Eduardo Fernandes foca-se para mais um heat. Photo by ISA | Jimenez

Como era o dia a dia da selecção? Tínhamos todos os dias a mesma rotina. Acordávamos às 5h da manhã e íamos treinar na zona de competição. Depois tomávamos o pequeno-almoço em equipa. De seguida, em função do horário de entrada dos nossos atletas, íamos para a praia ou ficávamos a descansar no hotel. Almoçávamos em grupo e regressávamos ao campeonato. Ao final do dia era altura de relaxar nos quartos e na piscina do hotel, alongar e ir jantar. A seguir à refeição, fazíamos a reunião no quarto onde víamos as filmagens, falávamos do dia de competição e preparávamos o dia seguinte. A reunião acabava todos os dias com um abraço forte e sentido entre todo o grupo.


“Os surfistas que representem a seleção nacional e que tenham resultados de excelência, podem vir a ganhar bolsas olimpicas, que podem vir a ser uma ajuda muito importante para os seus objectivos individuais no mundial de surf.”


 

Todos os surfistas que passaram pela Selecção desde sempre que falam da incrível união que se vive nos ISA. Na transmissão live e redes sociais deu para perceber que este ano não foi excepção. Como se consegue este sentimento de união, é algo natural tendo em conta o formato do ISA, ou é um misto disto mais o trabalho de motivação da equipe técnica? Um campeonato de seleção tem características diferentes de uma prova individual. Começa logo pelo objectivo não depender apenas de uma pessoa. O espírito de união desta equipa não dá para explicar por palavras. Acho que só quem esteve presente consegue perceber o que eu estou a dizer. Muitas pessoas vieram-me dar os parabéns não só pelo resultado mas também pelo espírito de equipa que nós passávamos para fora. Só posso estar orgulhoso de todos eles. Claro que é preciso trabalhar esta dinãmica e este espírito, mas isso só é possível quando tens um conjunto de pessoas dispostas a seguir-te e a acreditar naquilo que lhes estás a dizer.
Tudo começou quando criei o nosso grupo privado de WhattsApp com o nome: “ISA 2016: RUMO À VITÒRIA”! A primeira coisa que lhes disse foi se acreditavam que era possível serem campeões do mundo. E depois se se conseguiam imaginar a levantar a taça de campeões do mundo. As minhas palavras para eles depois de eles responder foram: eu não só acredito como vou fazer tudo o que esteja ao meu alcance para que isso seja uma realidade! A partir daqui, nasceu uma SUPER EQUIPA!


 

 “Só vamos saber ao certo os critérios e quantas pessoas por país, a meio de 2017. Temos uma ideia que vão ser apenas 10 a 16 homens e 10 a 16 mulheres a competirem em Tóquio.”


 

Mudando um pouco de tema. Como todos sabemos o surf estará nos Jogos Olímpicos em 2020. O que pensas que vai mudar no Surf Português?
Acho que a primeira coisa que vai mudar vão ser os apoios que o surf pode vir a receber do Estado. Os surfistas que representem a seleção nacional e que tenham resultados de excelência, podem vir a ganhar bolsas olimpicas, que podem vir a ser uma ajuda muito importante para os seus objectivos individuais no mundial de surf.
Estar nos Jogos Olímpicos, significa que o surf passa a estar no maior evento desportivo do mundo. Isto pode abrir espaço a que outros patrocinadores fora do meio do surf, queiram investir em eventos ou atletas. Infelizmente no surf mundial, ainda existem muitas pessoas que não dão o devido crédito aos campeonatos de seleção. Sei que ainda existe um longo caminho para que estas provas atinjam o nível desejado pelos surfistas, mas nestes últimos 3 anos a qualidade tem vindo a aumentar. Acho que o facto de a WSL e a ISA terem chegado a acordo para que ambas possam coexistir e trabalharem em função de um futuro melhor para o surf, é super importante. Este ano já tivemos atletas que estiveram no WT e outros que já ganharam provas 6* e Primes (actuais 6.000 e 10.000) a competir na Costa Rica. Não acredito que exista um único atleta que não gostasse de representar o seu país nos jogos olímpicos.

Jácome Correia é um grande candidato a um dia representar Portugal nos Jogos Olímpicos. Photo by ISA | Jimenez

Jácome Correia é um grande candidato a um dia representar Portugal nos Jogos Olímpicos. Photo by ISA | Jimenez

Pouco se sabe ainda como serão feitas as selecções para os JO. Tens alguma projecção de como cada país irá escolher os surfisats para os Olímpicos? Nós já tínhamos a confirmação oficiosa de que o surf ia ser olimpico há alguns meses, e já estamos a acabar o dossier de apresentação do ciclo olímpico para o surf. Só vamos saber ao certo os critérios e quantas pessoas por país, a meio de 2017. Temos uma ideia que vão ser apenas 10 a 16 homens e 10 a 16 mulheres a competirem em Tóquio. Mas até haver uma declaração oficial, vamos ter que esperar e continuar a trabalhar para que em 2020 seja possível trazermos a primeira medalha de surf para Portugal nuns Jogos Olímpicos.

Carol Henrique rasga para amealhar pontos para Portugal. Photo by Evans | ISA

Carol Henrique rasga para amealhar pontos para Portugal. Photo by Evans | ISA

Para terminar, como foram os merecidos festejos deste brilhante resultado para Portugal?
Jantámos em equipa num ambiente tranquilo e aproveitámos para celebrar este resultado histórico para Portugal!

Alguma mensagem/agradecimento final? Para terminar, queria agradecer uma vez mais à FPS pela confiança que teve em mim. Um obrigado especial ao presidente João Aranha e ao Vice Artur Ferreira. Um obrigado muito grande ao Miguel Moreira por todo o trabalho invisível que existe e que é graças a ele que muitas coisas acontecem da maneira que acontecem. Palavra especial ao departamento médico (Nuno Lança e Gonçalo Saldanha), este último com um papel preponderante na dinâmica da equipa na Costa Rica. Não me posso esquecer do Miguel Montes que foi incansável no trabalho e na paciência com os pedidos  dos nossos atletas. Obrigado ao Fiji por todo o apoio dado. Apesar de não ter estado presente, é uma mais valia muito grande nesta equipa. Por último, um muito obrigado aos meus atletas por confiarem em mim até à morte e por terem dado tudo o que tinham e que não tinham! Vocês são enormes! Na nossa equipa, o TODO vai ser sempre maior que a soma das partes! ISA 2017: RUMO À VITÒRIA!

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