Delinear objetivos competitivos é comum e crucial para qualquer surfista de competição. Esses objetivos, resumidamente, são idealizados mediante o nível, a idade e resultados anteriores do surfista em causa, tendo em mente o calendário desportivo do próximo ano.

O que tenho observado, ao longo dos anos em que trabalhei com alguns dos melhores surfistas nacionais, é que os objetivos competitivos abrangem um leque mais alargado de diferentes competições quando os surfistas são mais novos (na minha opinião na grande generalidade são demasiados objetivos para demasiadas competições) e à medida que vão crescendo esses objetivos são menos abrangentes em termos de tipo de competições, mas mais ambiciosos.

Na minha opinião qualquer surfista português que tenha talento suficiente, resiliência, dedicação e ambição para lutar por um lugar na elite do surf mundial, deverá desenhar muito bem a sua carreira júnior, principalmente no circuito júnior europeu, melhor ainda com uma entrada no mundial júnior, para depois chegar ao circuito de qualificação (QS) de uma forma sólida.

O meu pensamento e partilha de opinião é direcionado para os surfistas que se encontram na situação de dar os primeiros passos no QS. Há surfistas que têm como objetivo entrar no top200 do ranking de qualificação, outros no top100 para poderem fazer os QS 10.000, ao mesmo tempo traçam também objetivos para a Liga nacional e por aí fora. Se formos a ver bem, cada surfista tem uma lista com vários pontos de diferentes objetivos a cumprir no início de cada época.

Mas há algo comum a todos estes objetivos, seja em que competição for: a sua performance, que poderá ser avaliada pela média de scores atingidos em cada heat que participam.

E porque não desconstruir os vários objetivos propostos para a temporada e focarem-se apenas num? A média de scores por heat?

Se o surfista tem como objetivo, seja a curto, médio ou longo prazo, a entrada no CT, terá que ter uma performance de scores e resultados consistentes ao longo do ano. Nos primeiros anos no tour de qualificação a consistência de resultados poderá ser difícil de alcançar, mas deverão desde cedo focar-se na performance de scores e se possível ter o objetivo de ir colocando scores fortes nos heats, mesmo que, por exemplo, percam de primeira em todos os campeonatos. No fim do ano é essa média de notas que vai responder à pergunta: Poderei ser um surfista de CT?

Avaliando a média de scores por heat do top 10 atual do ranking mundial de qualificação, a pontuação é 12.49.

Já os restantes 90, perfazendo o top 100, a média total de scores por heat é de 11,58 (uma diferença de 0,91 relativa ao top 10 que parece pouco, mas que na prática é muito).

E agora comparando com alguns surfistas portugueses focados no QS, podemos observar que por exemplo o Vasco Ribeiro, atualmente na 31ª posição, tem uma média de scores atual por heat de 12,84, acima da média de scores do top 100 incluindo a média do top10 (o que é um excelente indicador para o seu trajeto futuro). O Miguel Blanco, na posição 92, atualmente tem uma média de scores de 10,43, ainda a baixo da média do total do top 100, mas perfeitamente enquadrado na posição que ocupa. Já o Tomás Fernandes está em 142 no ranking, mas com uma média de scores de 10,69, poderá ter pouca consistência de resultados, mas a sua média de scores demonstra que é um surfista que pontua bem e deverá continuar a trabalhar para melhorar essa média. O mesmo poderemos dizer do Nicolau Von Rupp, que tem uma média de scores de 10,03, uma média superior a alguns surfistas do top 100, mas encontra-se em 182 do ranking de qualificação.

Qualquer surfista português que ao longo do ano consiga, em competições internacionais, colocar médias de scores acima dos 11 pontos poderá estar no bom caminho, mas quando entra na casa dos 12 pontos é que o sonho poderá começar a ficar mais palpável.

O pensamento de passar heats por passar para alcançar os objetivos propostos podem, a longo prazo, ser prejudiciais para a carreira de um surfista. Mas trabalhar para alcançar scores altos e consistentes irão beneficiar um crescimento mais sólido e posicionar o surfista em causa no lugar merecido.

Rodrigo Bravo Pimentão / @guibravopimentao

Sobre o Autor:
Rodrigo Bravo Pimentão, ou Gui, para os amigos, conta com mais de 20 anos de surf, 13 deles passados com o cargo de director de marketing da maior empresa de surf do país, a Despomar. Actualmente é comentador de action sports, consultor da marca de pranchas Matta Shapes, líder de um programa de embaixadores da Despomar, distribuidor europeu da SurfSkate, opinion leader, pai de 4 filhos e lenda do skate português.

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