As panelas, pouco tímidas, gritavam pelas ruas de Buenos Aires. O Povo protestava a crise económica e era declarado estado de sítio. Sete mil quilómetros a norte, poucos se atreveriam a tilintar um talher contra o narcotráfico. A ponta da metralhadora acorda-me pela terceira vez. O autocarro, vindo da cidade do México, passava por uma zona em que os soldados se barricavam. Cenário de guerra. Não havia meiguices no ar!

Passaporte.

Sem sorrir e direcionando, para meu descanso, o cano da saída de balas para o chão.

Cada passageiro era um potencial criminoso. Sem sabermos, seguíamos por umas das maiores rotas de droga do sul do país. A viagem prolongava-se infinitamente. Um dia de viagem, dois autocarros, pequeno-almoço picante nas montanhas de Oaxaca e paragens rápidas na descida para o azul do Pacífico. O ar condicionado sobre rodas afastava-se abruptamente da temperatura de fora que aquecia de forma galopante. Chegámos já de noite a Puerto Escondido. Frederico, ombros largos e manga cava, aguardava os passageiros segurando uma cartolina com fotografias de um jardim, dois quartos de dormir e uma sala com Kitchenette. Também havia vista mar. Optámos pelo hotel na primeira linha e duas noites depois fomos conhecer a casa do argentino. O preço era convidativo e os dez minutos de caminho até à praia foram rapidamente encarados como um bom aquecimento para as longas horas no mar. Não esquecíamos as moedas presas no bolso dos calções que, já salgadinhas, eram sinónimo de sumos e tortilhas caseiras na esplanada do cafecito. A água era sempre oferecida no país da malagueta.

De volta a casa, gostava de ver o mar do terraço.

– Não sentes saudades da Argentina? – Perguntei-lhe.

Falou-me da crise. Não ia voltar tão depressa. Percebi que a economia não era a razão principal. Era o sonho! O México não era perfeito mas havia oportunidades para um jovem argentino. À porta de casa uma carrinha Chevrolet, já sem vidros e sem idade, esbanjava estilo americano. Do terraço viam-se ondas. Não estávamos sós na observação. Havia uma bonita mulher de olhos verdes que embalava um bebé. Olhei-a de relance. Para a casa, claro. Uma cabana idílica ou uma assoalhada ainda em construção mas com requinte de Lagoa Azul. Reparei que tinha um alpendre em folhas de palmeira. Era o espaço da família. O andar debaixo, espelhado na cartolina velha, existia para cativar forasteiros como nós. Éramos peças importantes para fazer face a despesas com combustível e pacotes de fraldas. Em troca vendia pedaços de felicidade à semana ou à quinzena.

O Sol baixou em Puerto Escondido. E não foi difícil perceber que o sonho, esse veículo movido a litros de coragem, ganhava forma no andar de cima.

João “Flecha” Meneses

Para ler mais textos de João “Flecha” Meneses vista o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses | Com quase três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

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