Quem diz que é preciso viver ao pé do mar para se ser surfista? Com o passar dos anos vão aparecendo cada vez mais oportunidades de aderir ao estilo de vida do surf mesmo vivendo no interior, seja devido a piscinas de ondas ou a outros “spots” invulgares, como a onda estática no rio Eisbach. Que o diga Ni Andrade, um surfista português que cresceu a surfar entre a Linha do Estoril e a Ericeira e que recentemente se tornou “local” da onda mais conhecida da Alemanha.

 

Antes de mais, conta-nos o teu percurso no surf?
Eu comecei a surfar em 2002, sob influência da minha irmã Joana (Andrade) e do Kieren (Grant), que era professor de surf na Angel’s Surf School em Carcavelos. Mais tarde treinei com o Marcos Anastácio e com o Bizuka e em 2003 ou 2004 comecei a competir em circuitos como o esperanças, regionais e taça de Portugal. Fiz algumas finais no esperanças, fui campeão regional duas vezes e no último ano como júnior ganhei a taça de Portugal. Ainda competi no nacional onde acho que cheguei ao top30. Entretanto fui viver para a Ericeira e comecei a dar aulas de surf, morava à frente dos Coxos e fiquei lá até conhecer a (futura) mãe dos meus filhos.

Como é que um surfista de Caxias/Carcavelos se torna local do rio Eisbach?
O meu filho mais novo tem um síndrome raro e, como na Alemanha estão os maiores especialistas, mudámo-nos para lá. Pouco tempo depois era local do rio Eisbach, era o mais parecido que havia com o surf perto de minha casa. Só mesmo por um motivo assim um surfista de água salgada vira surfista de água doce.

 

 

Quanto tempo demoraste até te integrares no “pico” e começares a dominar a onda?
Eu já conhecia um dos melhores surfistas de lá, o Simon, que me apresentou a alguns locais e, sendo um surfista do oceano, eles têm tendência a receber-te bem. A principal diferença entre essa onda e uma do mar é que, sendo estática, puxa para trás em vez de empurrar para a frente como no oceano. Ali, ao contrário das ondas do oceano, não tens de esperar pelo momento certo, nem remar, é sempre a andar, podes fazer uma curva atrás da outra, sem parar.

Como é a prancha ideal para o rio?
Tem que ser uma prancha mais pequena, eu uso uma 5’3” com 25 litros. O rocker da prancha tem que ser mais flat, quase como uma prancha de skimming mas em ponto grande e também se usa uma quilha mais pequena atrás para a prancha ficar mais solta.

 

 

Como é a hierarquia e dinâmica do local e quem são os destaques?
A hierarquia é um pouco como cá, quem surfa há mais tempo e tem mais notoriedade tem mais prioridade, pode passar à frente na fila. Não há voltinhas ao pico, é uma fila e salta-se para a onda. Normalmente o pessoal respeita-se todo. O tempo limite para uma pessoa normal, que não seja local, é de 30 segundos, mas os mais conhecidos podem ficar até um minuto. Normalmente a maior parte das pessoas cai ao fim de 10 segundos. Se estiveres lá sozinho podes fazer ondas de meia hora, mas não é fácil. Os destaques são o Tao, que parte a loiça toda, tens o Quirin (Rohleder), que tem uma certa notoriedade lá, e tens uma mão cheia de putos que destroem aquilo tudo, fazem kick flips, pop shuvits, big spins, todo o tipo de manobras de skate, fazem o que querem, parece que estão a jogar playstation.

O que rende mais, uma surfada no rio ou uma surfada em Caxias?
Boa pergunta. Já apanhei altas ondas em Caxias e acho que rende mais sempre uma surfada no oceano. Apesar de no rio fazeres mais surf pois passas mais tempo em cima de uma prancha, é só saltar para a onda e se estiver pouca gente estás sempre a surfar. Em termos de progressividade se calhar rende mais uma surfada no rio mas em termos de harmonia e cumplicidade com a natureza prefiro uma surfada em Caxias com os amigos.

 

 

E dá para surfar 24/7?
Sim, dá para surfar sempre. Agora no Inverno fica de noite a partir das 4 da tarde mas é só ligar um holofote e temos luz para surfar durante a noite. Às tantas aquilo parece um estádio de futebol, cheio de holofotes por todo o lado e se fores lá às 3 da manhã está lá pessoal a surfar. Está sempre a funcionar, a onda não para.

Como é a cultura do surf em Munique?
A cultura de surf lá surpreendeu-me pela positiva. São surfistas que moram longe do oceano mas têm alta pica para tentar ir à costa surfar, ou a Itália, estão sempre atentos às ondulações e querem muito evoluir. Parece uma surf town, vês pranchas em todo o lado, num domingo à tarde estão centenas de pessoas a ver e a tirar fotografias. Tens uma comunidade de surfistas bem grande, com surfshops, shapers, tudo, como se fosse Carcavelos.

 

(Gabriel Medina e Adriano de Souza também já passaram pelo Eisbach…)

Comentários