Quando assistimos a um evento da World Surf League, seja em Portugal ou fora, ao vivo ou pela web, vemos um produto final, pronto para avançar. O que raramente paramos para pensar é que, para chegar a esse ponto, há uma equipa a trabalhar dia e noite, com muito tempo de antecedência para estar tudo on point, ready to go. Um dos grandes responsáveis por este processo nas etapas nacionais da WSL é Frederico “Iko” Teixeira, uma pessoa que está ligada ao Championship Tour desde o seu regresso em 2009 e que eventualmente assumiu o papel de director geral do projecto. Mesmo vivendo mais no backstage, Iko conhece o processo como ninguém e, juntamente com Francisco Spínola e com uma sólida e coesa equipa, é um dos responsáveis pela expressão que as ondas portuguesas conquistaram a nível mundial.

 

Como te envolveste neste projecto inicialmente e como foi a evolução?
Eu vivia em Barcelona e trabalhava numa empresa que se chama IMG, que organiza eventos desportivos e de moda, gere carreiras de atletas como o Rafael Nadal, Roger Federer, Maria Sharapova, entre outros, mas já estava lá há 6 anos e apetecia-me voltar para Portugal. Tinha uma proposta para ir para o Dubai mas não estava muito para aí virado. Como tirei o curso com o Francisco Spínola mantivemos o contacto e em algumas conversas ele tinha-me dito que ainda íamos trabalhar juntos. Entretanto ele começou a projectar a vinda do Rip Curl Pro Search para Portugal e perguntou se queria trabalhar nele. Inicialmente era um projecto a 6 meses pois eu tinha um convite para outro projecto em Espanha 6 meses depois mas acabou por ser até hoje. Eu nem era do mundo do surf mas hoje em dia faço surf e passou a fazer parte da minha vida. Vivo em frente ao mar, já não me imagino a viver noutro sítio que não seja em perto do mar. A evolução tem sido espectacular, começámos com um evento e hoje em dia temos 5, mais projectos especiais, mais activações, mais coordenação de outros países e, como costumamos de dizer dentro da nossa empresa, queremos estar cá daqui a 20 anos e vamos estar com certeza.

Quanto tempo antes de cada evento, por norma, começa a preparação?
Depende de evento para evento, obviamente pela sua dimensão Peniche é o evento que demoramos mais tempo. Eu diria até um mês a montagem e o set up, porque depois trabalhamos o ano inteiro à volta deste evento, quer seja por melhorias, licenciamento, discussão e research de fornecedores, entre outras coisas. Em Peniche temos uma estrutura gigante, maioritariamente em cima de dunas e temos licenciamento de, que me recordo agora, 5 entidades diferentes. Depois tens eventos mais fáceis, como em Ribeira D’Ilhas, o EDP Billabong Pro Ericeira, que é uma praia que com as melhorias que foram feitas ficou preparada para receber eventos, quer em termos de infraestruturas, quer em termos de acessos. Todas as ligações, fibra óptica, água, electricidade, está tudo lá. O que não acontece em 90% dos outros eventos. Depois tens eventos como, por exemplo, Santa Cruz, onde usamos estruturas que já existem na Praia do Navio, e na Caparica, onde montamos tudo em cima do paredão. Tens ainda eventos que são autênticos desafios, como o Nazaré Tow Surfing Challenge, pelos timings que temos de set up, que neste momento está próximo das 36 horas, é uma corrida contra o tempo. Mas, resumindo, depende de evento para evento, os eventos de surf estão cada vez mais específicos, quer pelas ligações que são necessárias, quer pelos consumos energéticos, optimização desses consumos, preocupações ambientais, etc. Tudo isso são factores que vão moldando a forma como nós montamos os eventos.

Quais são os primeiros e últimos preparativos?
Tudo começa com a negociação da localização e temos sempre uma coorganização com as Câmaras onde temos os eventos, para ter um “braço” para a nossa equipa em termos de operação, licenciamentos, etc. Depois depende se vai ser um evento novo ou um evento que já existe. Se for um evento novo há uma série de passos que se tem que ir cumprindo, como os licenciamentos, conhecer as equipas, e encontrar a melhor opção para o tipo de evento que estamos a fazer. Se for um evento que já existe vai passando por diversos debriefs com todas as entidades para saber o que se pode melhorar. Depois disso temos a parte dos patrocínios, que é uma área estritamente comercial, tentar encontrar parceiros que queiram investir no nosso evento mas que para além da parte financeira tragam também algum factor ou alguma característica importante para os eventos. Os últimos preparativos são o set up puro e duro, que passa pelas montagens do evento em si e depois uma série de áreas que estão aqui envolvidas como os transportes, os alojamentos, a alimentação, etc. Mas basicamente é uma operação muito dinâmica, que nunca dás como tendo um começo, meio e fim. Um evento acaba e já estamos a planear o ano seguinte. Este ano não se verifica mas vou dar um exemplo. Nós começamos com a Caparica e Santa Cruz, que são eventos back to back, saímos daí e temos uma operação de uma activação do Turismo de Portugal no Brasil, depois normalmente viajamos para outros eventos, agora com esta nova realidade de estarmos a gerir a WSL EMEA (Europa, Médio Oriente e África), e no meio disto tudo vamos preparando Ericeira, Peniche e Nazaré.

Qual é o teu papel dentro de todo esse processo?
Eu toco em todas as áreas, desde os patrocínios à parte da operação, faço um bocado a coordenação de toda a equipa, estando sempre em contacto com a World Surf League e com o Francisco (Spínola), que hoje em dia está só dedicado à parte do General Managment da WSL EMEA, onde tem um desafio grande de tentar replicar o nosso modelo de negócio e a forma como nós construímos o nosso negócio aqui em Portugal em regiões com potencial enorme como França, Espanha e África do Sul. Eu considero-me como o director geral do projecto.

Quais são os maiores desafios?
Eu acho que o maior desafio hoje em dia é tornar os eventos o mais eficientes possíveis a todos os níveis. Incluindo do ponto de vista financeiro, que é o mais importante, a célebre gestão dos orçamentos e do P&L. A receita versus a despesa, tentando encontrar aqui sempre o ponto óptimo daquilo que estamos a entregar aos fãs de surf e aos patrocinadores, nunca descorando a vertente do negócio, que é onde ganhamos dinheiro hoje em dia. Este para nós é o maior desafio. E depois é seguir a orientação da World Surf League internacional, que sendo uma empresa com uma cultura marcadamente americana tem algumas diferenças para a cultura mais europeia, que é a nossa. Temos que tentar fazer um bocadinho deste transporte entre culturas, mas à imagem daquilo que é hoje a WSL. É isso que nos está a levar para um nível superior em termos de surf enquanto produto para os fãs.

De todos os eventos realizados nestes últimos 10 anos, qual foi o que correu pior, e qual foi o que correu melhor e porquê?
Não acho que tenha havido um que tenha corrido melhor ou pior, acho que todos os eventos têm fases boas, fases más, altos e baixos, pontos positivos e pontos menos positivos e pontos a melhorar. Obviamente que há coisas que nos marcam, como aquele evento épico em Peniche, 5 dias consecutivos de ondas incríveis e as ondas que temos apanhado em Ribeira D’Ilhas. Este ano o Nazaré Challenge foi um evento que me marcou muito, por tudo o que aconteceu ao Alex (Botelho) e ao Hugo (Vau). Pela carga emocional que esteve envolvida a este acidente, e sendo nós responsáveis pelo evento tocou-nos muito. Por outro lado o Nazaré Tow Challenge também foi um boom em termos de retorno e não só pelas notícias em torno do acidente. Fizemos o estudo separando as notícias do acidente daquilo que o público vibrou e sentiu, e o feedback que houve à volta do evento neste novo formato foi incrível. Eu não consigo dizer qual foi o pior ou o melhor, todos os eventos tiveram coisas muito boas e houve eventos com coisas menos boas. No cômputo geral acho que desde 2009 até hoje temos vindo sempre a crescer, com os nossos parceiros, com o público. A indústria do surf também tem vindo a crescer, Portugal também virou-se para o mar, há um antes e um depois de 2009 no surf mas é sempre positivo, para nós há sempre coisas boas a tirar de cada evento.

 

Como organizador de eventos de surf em Portugal, qual é a importância de ter um português no Championship Tour?
Para nós há um MEO Rip Curl Pro com portugueses e um MEO Rip Curl Pro sem portugueses em prova. Nós somos um país ultra nacionalista, um país que tem uma facilidade enorme em criar heróis. Tens o exemplo hoje do Kikas, que é considerado um herói nacional, não há sequer comparação de teres um português em prova ou um português já fora de prova. E depois há atletas com mais ou menos cartaz, tens o Medina ou um Slater em prova que mexem muito com a dinâmica do evento, e com o público presente.

Falando um pouco da actualidade, quando e como foi decidido o cancelamento das etapas de Março?
Nós fomos avaliando a situação desde o início, desde Janeiro. Sabíamos que era uma possibilidade mas obviamente que esperámos até dar, até ao momento que deixou de fazer sentido não do ponto de vista do evento em si, mas do ponto de vista social. Não estão reunidas as condições do ponto de vista social para acontecer o que quer que seja, senão a reclusão ou quarentena. Não há outra realidade possível neste momento. Custa muito a todos, como disse no início, nós temos uma relação muito estreita com as Câmaras onde desenvolvemos os nossos projectos, neste caso Torres Vedras e Almada, e estivemos sempre em conversações, até que chegou ao momento em que decidimos que íamos adiar. Antes destes contactos trabalhámos num “Plano B” e conseguimos assegurar logo no calendário umas datas premium, que são as duas primeiras semanas de Setembro. Se tudo correr bem, é quando vamos fazer essas duas etapas, na primeira a de Santa Cruz e na segunda a da Caparica.

Quais achas que serão as consequências para a WSL?
As consequências são negativas transversalmente. Acho que do ponto de vista económico vai ser um ano muito difícil para toda a gente, quer do ponto de vista de trabalhadores independentes, às pequenas, médias e grandes empresas, todos vamos passar tempos difíceis. A WSL não é excepção, são os nossos eventos que geram receitas, não o fazendo perdemos essa receita mas eu acho que agora é a altura de fazer das fraquezas forças, estarmos todos unidos, ser fortes e esperar que o futuro nos reserve algo melhor.

Nos anos 90 a Quiksilver fez o primeiro evento em G-Land, uma prova sem público, apenas staff, competidores e media. Na altura o evento teve tanto impacto que mudou para sempre o tour, que passou a ter mais eventos em ondas perfeitas e começou a abdicar de locais com mais público na praia. Tendo em conta a evolução da tecnologia achas que essa pode ser uma solução no futuro próximo? Fazer eventos sem público mas com acesso via web para pessoas de todo o mundo?
É uma questão que tem sido muito discutida dentro da World Surf League. Se olhares para o calendário, temos um mix de tudo. Tens o Tahiti que é um evento de muito difícil acesso, embora tenha muitos barcos na água mas não é um evento de massas, e depois tens eventos como Portugal, França e Brasil que são eventos já com muito público. Mas tem que haver um mix, até para os atletas é importante sentirem o apoio do público, sentirem que estão milhares de pessoas na praia, ouvirem os gritos, palmas e etc. Mas depois tens o outro lado, que é estar em G-Land, onde o acesso é ultra remoto, é difícil de lá chegar mas vais surfar ondas perfeitas que é o objectivo de qualquer surfista, seja amador ou profissional. Acho que o tour deve ser isso, um bocadinho de tudo.

Para terminar e entrando num lado mais pessoal, sabemos que te envolveste com eventos Iron Man como participante. Como fazes para conciliar uma agenda já tão apertada entre família, amigos e trabalho com uma modalidade tão exigente?
Eu tenho a sorte de não ter o típico trabalho das 9 às 5, senão seria um bocadinho mais difícil. Eu sempre corri, quando vivia em Espanha corria e jogava paddle e ténis, e quando cheguei cá um amigo meu falou-me disso. Gostei do desafio, inscrevi-me e fiz. Entretanto nunca mais parei, dá para conciliar. Parece mais um bicho de sete cabeças do que é mas se acordares cedo, tipo 6 da manhã, podes treinar, e treinas à hora do almoço também. Muitas vezes tens de deixar o surf para trás mas dá sempre tempo, é uma questão de meter na cabeça que tens que treinar todos os dias, pelo menos duas horas e meia ou três. Posso dizer que o Iron Man fez de mim uma pessoa muito mais completa, mais organizada, mais confiante tanto a nível pessoal como profissional e optimizo muito melhor o meu tempo, só me trouxe coisas boas.

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