Ó Canha, não sei se o teu bisavô ou o teu avô alguma vez conheceram a perfeição das ondas da Madeira, ali em frente ao engenho da cana-de-açúcar que pertencia ao Morgado do Jardim do Mar. Não sei se endureceram as mãos a trabalhar neste ou noutro cultivo da terra, mas com toda a certeza sabiam tudo sobre essa profissão antiga. Sabes melhor do que eu que há séculos que os madeirenses percebem dessa arte como ninguém. Imagino os festejos dos economistas do reino sempre que saía um barquinho cheio do nosso produto docinho. Equilibrava a balança comercial, era exportar para todo o lado. Bons tempos, bons tempos!

Também deves saber melhor do que eu, que no final do século XIX a concorrência mundial era forte. Os americanos já nos estavam a passar a perna. A Indústria do açúcar entrou em declínio na Madeira, mas a sabedoria iria ser exportada para outras ilhas a milhares de quilómetros de distância. E eram os homens e as mulheres que levavam essa sabedoria. Ó Canha, então a malta pensava que só levávamos o cavaquinho (braguinha da Madeira) para o Havai? Ai Jesus! Pensavam que íamos para lá tocar o bailinho, sem suar e sem fazer crescer a economia das Ilhas?

Tenho aqui algumas curiosidades que me intrigam. Gostava de saber se o teu avô fez a viagem de barco que durava mais de três meses ali entre 1878 e 1887. Esse período de 10 anos foi forte na emigração para o Havai. Na tua biografia percebo que ele foi com os seus pais. Ainda devia ser um rapazinho pequeno, será que já tinha trabalhado nos campos da Madeira? Já estou a querer saber muito da tua família, mas fiquei curioso. Desculpa Canha, mas é que a tua história agarrou-me a sério. Mas vamos lá à grande viagem. Primeiro foram vocês, depois os açorianos e só depois a malta aqui do continente, mas esses só abalaram no início do séc. XX. Vocês foram os primeiros. Rijos, corajosos e sedentos de uma vida melhor. Quem conhece a ilha dos teus antepassados rapidamente percebe que aquelas paisagens são bonitas de se ver, mas para trabalhar nos campos a coisa dói. Imagino os músculos para construir aquelas levadas, era a abrir caminho por ali adentro e só paravam para atacar o farnel. A força está-vos nos genes!

Mas ó Canha, estamos aqui para falar de ti. Quero partilhar com os surfistas portugueses as tuas performances nas ondas do Pacífico. Em relação à nossa história, tão fascinante e cheia de aventuras, tenho a certeza que irão encontrar estudos muito interessantes de historiadores, sobre a vossa (nossa) chegada às ilhas e os vossos (nossos) contributos para a sociedade havaiana. Sabes que 10 % da população é luso-descendente? O teu pai já nasceu no Havai e chamava-se Louis Canha, mas vou escrever Luís, deixemo-nos de americanismos, por essa altura as ilhas ainda não eram um Estado Americano. O Luís Canha casou com a Rose Ventura da ilha de Maui e nasceste tu, em 1932, o único dos 4 filhos do casal que se apaixonou a sério pelo mar. Ó Canha, como eu gostava de te ter mostrado as ondas da Madeira e que tu me guiasses pelas ondas das tuas ilhas do pacífico! Contigo ao meu lado tenho a certeza que era só Aloha na nossa direcção.

Vou tratar-te por Tio Canha. Sei que é um termo carinhoso no Havai. A experiência e a idade encarnam a palavra Uncle. É uma questão de respeito. Aqui a palavra tio sem ser em contexto familiar, tem outro significado. Mas isso era outra conversa. Estive aqui a ler a tua biografia escrita pela Francine Park Palama, que acabou por ser a tua mulher e deixa-me dizer-te que fiquei tão orgulho de ti. Em 1956 ganhas a Makaha International Surfing Competiton e depois ganhas o campeonato mundial em Lima, no Peru. Eram três categorias. Ondas pequenas, ondas grandes e remada. E tu vais lá e limpas as duas primeiras. Imagino o melão dos peruanos, já experientes nessas andanças.

Voltando um bocado atrás, cresces em Maui e tens uma infância cheia de liberdade nas plantações de cana-de-açúcar. Um pouco depois do final da II Guerra Mundial foste com a tua família para a Ilha de Oahu à procura de melhores condições de vida e é por ali, na praia de Waikiki, que começas a pescar, a fazer bodysurf e a nadar que nem um peixe. Só mais tarde começas a deslizar nas ondas de pranchão. Antes de seres surfista já eras um waterman, está-se mesmo a ver. É assim mesmo!

Gostei de uma frase que o teu pai te disse quando desististe da escola:

“Filho, não envergonhes o nome da família e vê lá se trazes algum peixe para casa.”

Essa frase foi de homem e de bom chefe de família. O nome é para ser honrado e fica a saber que na minha opinião não envergonhaste ninguém. E assim seguiste a tua paixão pelas ondas, conheceste os surfistas do King Surf Club, que eram os Beach boys de Waikiki. Fogo Tio Canha, conheceste o Duke Kahanamoku! Ouvi dizer que ele foi um dos responsáveis por arranjar financiamento para a tua viagem ao Peru. E tu lá foste representar o Havai, a tua terra. Que orgulho pá.

Gostavas das ondas fortes de Makaha, mas eras rei em Ala Moana. Um beach boy tinha que dominar aquela zona. Diziam que dropavas bem lá atrás, davas aquele toque de magia com o tail/rail, que eu gosto de chamar, em linguagem tosca, o “cutback de atraso” para entrar no tubo. E depois andavas lá dentro como água que desce em torpedo pela levada e que dá energia ao moinho para esmagar a cana-de-açúcar.

Quem te viu, dizia que esbanjavas estilo! Viajavas numa espiral no tempo e no espaço, onde o Havai e a Madeira se uniam na tua linha de surf.

 

Devia ser bonito de se ver!

Aloha, Tio Canha.

 

Para ler mais textos de João “Flecha” Meneses visita o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses | Com três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

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