António Silva fala sobre a sessão na Galiza, a Nazaré, Laird Hamilton e + | Mini-Entrevista

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Uns meses depois de ser notícia a nível nacional e internacional, António Silva volta a dar que falar. Desta vez o surfista da Praia Grande passou a fronteira à procura de tubos e desafiou algumas das condições mais pesadas que vimos nos últimos anos.

Como começa a ser tradição, “Toni” deu a primeira entrevista à ONFIRE onde falou sobre a sua surfada, a actualidade e outros tópicos que têm dado muita polémica.

Onde surfaste no dia 27 de Outubro?
Estive na Corunha, em Espanha, fui lá apanhar umas ondas. Vi que o swell ia ser enorme e que o período ia ser gigante, como já não via há uns anos. Fui com o meu parceiro de tow in, o Ramon Laureano, e um grupo de grandes amigos como o João Guedes, Ivo Santos, Faustino, Malafaya e o Axi Munian que é quem descobriu a onda e quem nos deu o “call” para irmos. No ano passado tínhamos curtido altos tubos lá e estávamos a aguardar que aparecesse um swell mesmo “XXL” para arrancarmos.

Quando recebemos as primeiras fotografias deste pico, há uns bons meses, pediste para não publicarmos as tuas imagens. O que mudou entretanto?
Antes o Axi pediu-me para não divulgar e eu respeito essa situação. Só surfei lá porque ele me convidou, de outra maneira não teria ido, e respeitar os locais é a regra número um para mim! Esperámos até ao dia certo, que foi este, e agora já se pode divulgar. De facto uma onda daquelas merece ser vista, há poucas assim no mundo e aquela costa tem um grande potencial.

Porquê Corunha e não Nazaré?
Porque é o tipo de ondas que eu gosto! Eu gosto é de “slabs” e tubos, e de maneira alguma eu trocaria um tubo por uma onda na Nazaré. Claro que a Nazaré é uma onda assustadora, é outro tipo de mar e anda-se a bater recordes muito grandes ali. Acho que é um grande orgulho para todos nós termos a Nazaré. Mas o que eu gosto de fazer é dar tubos!

Como foi a sessão? No vídeo deu para perceber que estava muito vento…
Chegámos lá e não era vento, eram ciclones de vento “side-off”. Sabíamos que o pico do swell ia ser ao fim do dia mas até às duas da tarde não havia sinais de dele e começamos a questionar se realmente ia dar alguma coisa ou não. Às duas da tarde estava a dar ondas de três metros, mas às três já estavam seis metros, 10 minutos depois estavam sete metros, depois 10. Fomos para o porto, de onde saímos pois a onda é em alto mar, e arrancámos. Foi surreal, o período era tão grande que houve ondas em que a primeira do set juntava com a segunda. Comecei por apanhar umas mais no rabinho da onda só para perceber como estava e vimos logo que aquilo estava “sinistro” de andar atrás da mota, o vento era descomunal. Entravas na onda e já não vias nada e tinha muitos saltos… Apanhei umas mais ou menos e a seguir apanhei uma linda que ia ser o tubo da minha vida. Entrei perfeito e puxei um bocado para trás do pico para entrar mesmo tipo backdoor mas quando estou a puxar para dentro o pé salta-me do footstrap e de repente aquilo virou um pesadelo. Fiquei de costas a descer em layback, voltei a encaixar o pé mas aí já estava na base da onda sem velocidade. Vi o lip a passar por cima de mim, uma cena medonha.

Foi o queda mais violenta que já deste?
Sim, ondas de alto mar são muito perigosas. Nestes baixios de alto mar vais de uma profundidade de poucos metros para centenas se for preciso. Perdi o ar na queda, senti logo os ouvidos a rebentar e percebi que já estava muito fundo. Relaxei e quando senti que ela perdeu a força abri os olhos para nadar e vejo tudo preto. Começo a nadar e não vinha ao de cima. Entretanto, depois de nadar muito, comecei a ver luz mas vim para baixo outra vez por causa da onda seguinte. Aí já me estava a faltar mesmo o ar. Quando finalmente cheguei acima vi o jet ski a vir mas ele estava muito fora e levei com outra. Até que o Ramon me apanhou, mesmo a tempo porque depois entrou um set que não sei o que teria acontecido se ainda estivesse no mesmo sítio.

A sessão acabou aí?
Sim, perdi a prancha, andei uma hora à procura dela e não a encontrei, por isso a sessão acabou aí, com o “wipe out” da minha vida. Foi bom, deu para sentir que o treino que tenho vindo a fazer tem valido a pena, deu para sentir que tenho de treinar mais ainda! Tenho treinado muito com o Ramon, com o SurfFisio e com o Jojo, e acho que foi isso que me salvou a vida.

Isso quer dizer que se acabaram as noitadas e maluqueiras?
O pessoal do Lux já sente a minha falta (risos), tenho tido muitas faltas de comparência.

Vais estar de olho nessa onda no resto do Inverno?
Sim, e há mais. Para mim é “slabs”, surfar todo o tipo de ondas que houver em Portugal e por perto. Quando tiver tempo é disso que vou andar para trás.

Estás sem patrocínios, como consegues continuar a fazer esta vida a perseguir ondas pesadas e perfeitas?
Boa pergunta. Tenho a sorte de ter o parceiro que tenho, que é o Ramon, e de ter os amigos que tenho. É mesmo disto que eu gosto, destas ondas pesadas, não me tentem vender outras coisas. Não faço surf para ir ao telejornal ou para falarem de mim. Isso pouco me interessa, eu gosto é de surfar e puxar os meus limites. Agora estive um mês a trabalhar, a fazer water patrol no Moche Series, para ter dinheiro para fazer esta sessão e mais algumas. Tenho que agradecer ao Francisco Spínola por nos ter contratado. Vou sempre andar atrás destas ondas, haja patrocínios ou não, posso é ter menos tempo para dedicar a isto.

A mediatização que tiveste nestes últimos não se traduziu em patrocínios, ou oportunidades?
Nada. Tenho um bom patrocínio de pranchas, a SUPERbrand, o apoio do bar Guilty, e mais alguns. Tenho amigos, como o Pedro Gonçalves “Dr Ding”, que também me tem ajudado muito. Mas de resto não tenho mais nada. Isto num país em que está a acontecer tanta coisa com o surf…

Só para terminar, o que achas das polémicas afirmações do Laird Hamilton?
Acho que ele faltou ao respeito aos big wave riders do mundo inteiro. Acho que isto das ondas grandes tem de haver respeito quer se surfe ondas mais moles ou mais pesadas, estamos todos ali a arriscar a vida, tem  de haver respeito e reconhecimento. A Maya quase morreu duas vezes, é uma heroína, muitos homens morreriam ali. A onda do Burle é gigante, e quebra, foi animal. Tenho todo o respeito por ele e pelo Garrett e todos os que andam ali a arriscar a vida em situações extremas. Não vejo ponto nenhum positivo no que o Laird disse.

 

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