Vou falar-vos do maior waterman de todos os tempos. Um homem que nasceu para nos ensinar que há actos de bravura que não podem ser explicados de forma racional. Vou falar-vos de um homem que se tornou lenda no Havai. Vou falar-vos de um professor, de um mergulhador, de um trapezista das ondas. Vou falar-vos de Jose Angel!

A sua história daria um filme de aventura, de drama, de romance. A vida de Jose Angel, tal como ela foi, curta mas intensa. Filho de pai filipino e mãe canadiana, desde cedo que percebeu que o seu caminho seria com desafios permanentes e que a vida é uma encruzilhada de viagens, com encontros e desencontros e sangue de todos os mundos.

Cresceu em São Francisco e durante o liceu praticou natação, pólo aquático e tantas outras actividades físicas que o moldaram por dentro e por fora. Chegou ao Havai na década de 50 com a sua namorada para um ano de sonho, tendo como colchão um barco ancorado e como teto o céu do pacífico. Surfaram, pescaram e pensaram num futuro nas ilhas. E foi por lá que Jose se licenciou em educação física e decidiu criar raízes. Família, amigos, trabalho, impostos ao Estado e ondas. Muitas e grandes!

 

 

Jose fazia parte de um grupo de audazes e privilegiados surfistas que largaram a vida no continente americano e rumaram à Meca do surf. Um grupo pequeno e unido de exímios nadadores que não viravam costas a uma grande ondulação. Peter Cole, Buzzy Trent e Greg Noll eram alguns dos nomes mais sonantes em Waimea e Sunset, mas era Jose Angel o mais ambicioso quando se tratava de dropar no sítio mais difícil. Entre descidas vertiginosas de backside ou cambalhotas propositadas onde ninguém desejava cair, foi construindo ao longo do tempo uma reputação de guerreiro. Era admirado pela comunidade havaiana não só no mar, mas também em terra, como professor e director de uma escola no North Shore de Oahu. Imaginem os seus alunos (alguns deles tornaram-se sufistas profissionais) ao verem o seu professor nas primeiras páginas dos jornais locais, a descer ondas gigantes. Um verdadeiro professor! Em 1960 faz a capa da primeira edição da Surfer Magazine.

Uma das outras paixões de Jose Angel era o mergulho. Mais tarde seria a segunda forma de sustentar a sua família, através das suas incursões às ilhas de Maui e de Kauai em busca de coral negro. Um mergulho mal sucedido deixou-o com problemas de mobilidade numa perna. Continuou a surfar, mas entraria numa fase depressiva, ao perceber que já não tinha as mesmas capacidades físicas. Dois anos depois do acidente, desapareceu ao largo da Ilha de Maui, numa descida que dizia ser a última da sua carreira de mergulhador.

Viveu a vida de forma intensa e deixa-nos um legado de purismo e de honestidade.

Aloha Jose

*Stuart Holmes Coleman, no livro Eddie Would Go, investiga com alguma profundidade uma parte da vida de Jose Angel. Uma leitura obrigatória para quem quiser conhecer melhor este waterman.

 

Para ler mais textos de João “Flecha” Meneses visita o seu blog “Caderneta de Mar”.

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses | Com três décadas de surf nos pés, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é mais uma grande colaboração com a ONFIRE.

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