A temporada (gigantesca) de Alex Botelho no Hawaii

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Alex Botelho conta-nos como foi uma das mais pesadas sessãoes da sua vida, a épica sessão em Jaws, Hawaii, e que o deixou no estaleiro durante uns tempos. Nas épicas sessões que Jaws produziu no início deste ano estavam dois portugueses presentes, Alex Botelho e Nicoulau Von Rupp. O algarvio, um ávido e respeitado internacionalmente amante de ondas gigantes, foi o primeiro a chegar à ilha de Maiu e, como poderás ler na entrevista abaixo, nem conseguia acreditar no que os seus olhos viam!

Verdadeiros prédios aquáticos partiam perfeitos na lendária bancada de Jaws, graças a uma combinação rara de ondulação e vento para esta ilha! Este é um tipo de surf muito diferente do dia a dia, desde a preparação às pranchas e passando pelo ambiente dentro de água.

Foi também nesta viagem que Alex se magoou seriamente – como poderás ver no vídeo no final da entrevista – mas nada melhor do que Alex para nos contar como foram estes dias intensos naquele que é uma pequena e isolada ilha (Maui) que tem alguns 11 climas diferentes, o que em tudo contrasta com a mais famosa ilha havaiana, Ohau.

Alex, conta-nos o que foste fazer para o Hawaii?
Fui atrás da ondulação que entrou no dia 15 Janeiro para surfar em Jaws. Estava já há bastante tempo a planear esta viagem e era uma onda que queria muito surfar, e o intuito era juntar imagens para o BWT com o apoio da EDP Mar Sem Fim. Já tinha visto várias ondulações o ano passado e este ano, e estive várias vezes para arrancar mas não houve a ondulação certa. Esta ondulação pareceu-me a melhor para ir, e depois disso continuarem a entrar mais ondulações, o que foi um grande bónus.

Foi a primeira vez que surfaste em Jaws? Como estava o mar nesses dias que surraste?
Sim, foi. O mar estava completamente perfeito, sem vento (coisa muito rara nesta zona), mas grande, assustadoramente grande. Nem queria acreditar quando estava a ver as previsões, fiz refresh à página 3 ou 4 vezes para ver se não estava enganado nas previsões do vento. Até demorei mais até comprar o voo porque pensava que havia um erro qualquer nas medições e que não poderia estar assim tão pouco vento.


“Há um ambiente muito bom de ajuda entre os surfistas e os condutores na motas, e se houver algum problema significativo alguém está disposto a ajudar. E ajudaram-me, o Wangdu, o Victor e o Ollie, especialmente no wipeout que tive. Mas não é algo em que devemos de fiar se não viermos com uma pessoa da nossa conta. Se vais para lá sozinho, deves saber tirar-te de lá sozinho.”


Como é que se vivem esses dias em que se sabe que se vão surfar ondas daquele nível?
Durante o dia anterior e o próprio dia da ondulação convivi com várias pessoas que iam surfar, e todos têm uma forma diferente de se comportar. Uns estão sempre a falar do que irá acontecer, a fazer perguntas e excitados, outros estão noutra, completamente relaxados. Eu penso muito no meu equipamento, se está tudo pronto e seguro, e depois certifico-me a partir de que horas entrará a ondulação. Se tiver isso tudo controlado, até essa hora consigo estar tranquilo, depois disso a excitação é inevitável! No geral sente-se o ambiente na véspera da ondulação, antecipação, nervosismo, excitação, anda tudo pelo ar.

E os locais, como é que vivem esses dias?
São todos diferentes, uns hiper preparados, outros relaxadíssimos.

Quem foram os surfistas que mais te impressionaram na água?
O Ian Walsh tinha uma consistência quase perfeita em completar ondas, e o Shane Dorian tinha uma escolha de onda tão cientifica que fazia toda a diferença. Albee Layer e Kai Lenny tinham um à vontade que parecia o (Tiago) Oliveira a surfar nos Coxos.

Foi o maior mar que já surfaste?
É tão difícil comparar o tamanho nestas sessões. Às vezes parece-me gigante na água e depois nas fotos nem tanto, ou precisamente o contrário. A sensação foi o mar mais pesado que já estive, ondas gigantes e tubulares. Em termos de tamanho talvez já tenha visto ondas maiores…

Houve uma sessão em que também estava o Nicolau Von Rupp na água. Como foi ter companhia de um amigo do teu país a surfar ondas destas?
O Nicolau apareceu lá numa das maiores ondulações. Chegar ao estacionamento e vê-lo lá deu logo um sentimento de familiaridade e pica! É muito confortante poder ver alguém familiar no outro lado do mundo num dia de ondas tão incríveis como aquele.

Surfar em Jaws requer um tipo de pranchas completamente diferente do usual. Qual o quiver que levaste e que prancha (ou pranchas) usaste?
Levei as pranchas que o Octávio na Ferox fez, uma 11’0” e uma 10’5″. Queria levar mais mas cada uma destas pranchas pesa mais de 10 quilos e não foi possível levar. É um pesadelo viajar com este tipo de pranchas com as companhias aéreas.  Há anos que estamos a experimentar shapes diferentes para este tipo de pranchas e sinto que chegaram a um ponto que estão bem afinadas, mas são sempre feito alterações de shape para shape para melhorar. Já as tinha experimentado na Nazaré e em Mavericks, e estas duas pranchas eram as que mais confiança me deram, então levei-as. As duas acabaram partidas, e ainda comprei lá mais uma, que se partiu também no wipeout (e que podes ver o vídeo no final). A onda não dá hipótese às pranchas, por dia via-se facilmente 15 a 20 pranchas partidas.

Tinhas algum colete de insuflação ou impacto? Qual a importância destes neste tipo de surf?
Olá se tinha! Nos dias maiores uso um colete de impacto mais um colete de insuflação. Acho que este tipo de equipamento é fundamental. O mais importante continua sempre a ser a preparação física e mais ainda a psicológica, mas o certo é que estes equipamentos já preveniram afogamentos. Todos que estão a surfar nestas condições e a levar ao limite usam algum tipo de colete. Acho que não estaríamos onde estamos no surf de ondas grandes sem estes equipamentos. Não é por nada que desde que apareceram, o surf nesta área deu uma grande explosão.


“Todos se respeitam, e não há a atitude de localismo bruto que se encontra em lugares de ondas sem consequência.”


Tinhas alguém para te ajudar com mota de água se fosse necessário ou as motas que estão na água nestes dias ajudam qualquer um?
Não tinha ninguém em particular, não conhecia lá ninguém nas motas. Há um ambiente muito bom de ajuda entre os surfistas e os condutores na motas, e se houver algum problema significativo alguém está disposto a ajudar. E ajudaram-me, o Wangdu, o Victor e o Ollie, especialmente no wipeout que tive. Mas não é algo em que devemos de fiar se não viermos com uma pessoa da nossa conta. Se vais para lá sozinho, deves saber tirar-te de lá sozinho.

Há algum tipo de hierarquia dentro de água nestes dias?
Igual como em todos os outros lugares de ondas de consequência. É estabelecida principalmente por quem se compromete a apanhar as melhores ondas com sucesso respeitando os outros.

Como é que é o ambiente entre surfistas numa sessão destes? É salve-se quem poder como num dia de um metro em Portugal ou há outro tipo de respeito e cavalheirismo?
Todos se respeitam, e não há a atitude de localismo bruto que se encontra em lugares de ondas sem consequência. Há muito respeito e cautela, a última coisa que queres que aconteça é por tua falta de atenção prejudicares outra pessoa. Estão todos de olhos uns nos outros, é esse tipo de atitude que deveria de haver em todo o lado e todos os tamanhos. Mas quando vem uma torre ambulante prestes a rebentar no horizonte, o ambiente vira um um pouco salve-se quem puder ahah.


“Prancha partida, leash partido, colete insuflou sozinho logo no impacto segurando-me na espuma… Foi tudo pelo ar. Magoei-me no joelho e na cervical, uma extensão de ligamentos e compressão das vértebras.”


Quais as grandes diferenças entre a ilha de Maui (onde fica Jaws) e Oahu, onde fica o famoso North Shore?
Senti uma diferença enorme! A maior cidade em Maui é pequena, e sente-se um ambiente muito mais calmo. Em Oahu consegues encontrar isso em certos sítios, mas no geral é mais agitado. Maui também tem um clima diferente. Em geral tem muito vento! Há dois vulcões e no meio uma planície que canaliza vento, enquanto que Oahu tem mais picos que ajuda o vento a se manter alto. Maui também tem alguns 11 climas diferentes, desde tropical e húmido, a montanhoso com neve. É incrível a variação de clima de zona para zona na ilha, e lindíssimo de se ver. Faz parecer um lugar pequeno e isolado, uma ilha, parecer muito mais vasto e rico.

Supostamente ias ficar mais tempo mas magoaste-te numa dessas sessões. O que aconteceu?
Espetei-me, numa onda em que o vento me segurou na primeira parte do drop e quando finalmente arranquei atrasou tudo e caí no drop. Prancha partida, leash partido, colete insuflou sozinho logo no impacto segurando-me na espuma… Foi tudo pelo ar. Magoei-me no joelho e na cervical, uma extensão de ligamentos e compressão das vértebras. Nada de muito grave, e grato estou eu de ter sido só isso! Mas estava a incomodar-me a surfar e resolvi voltar para tratar de tudo e não deixar arrastar, que aí é fácil de se tornar numa coisa mais séria.

O que vais fazer agora com este tempo no estaleiro?
Curar-me, fortalecer o joelhinho, aproveitar para estar na fábrica da Ferox a fazer novas pranchas o ano. Estar no estaleiro tem algumas vantagens para estar descontraidamente a fazer outras coisas sem estar constantemente preocupado com o que anda a fazer o vento ou o mar. Mas vai ser rápido!

Neste momento, Alex Botelho já está novamente ao surf e a apanhar as ondas perfeitas do nosso país!

(Onda em que Alex Botelho se lesionou)

 

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