A Montanha Russa | Blog Post | By João “Flecha” Meneses

publicado há 2 anos por 0

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Lá ao longe vem o Medo acompanhado por sombras no horizonte que adivinham um grupo de ondas maiores. Ele, rapazinho assustado, não quer ir, não quer descer e o Medo diz-lhe:

– És mais medroso do que pensava.

Nisto aparece o Orgulho que o faz remar. Desce a onda com medo, tanto. No final grita:

– Sr. Medo, vai chamar medroso a outro que eu já te mandei para trás das costas e embrulhei-te em pacotinhos de coragem. Querias que me transformasse num ser humano com coração de pânico? Querias, não querias? Olha Sr. Medo, um dia vou descer a Montanha Russa. Ah pois vou!

E o cabrão do Sr. Medo a rir-se, a virar a cara e a piscar o olho à Sr. Morte:

– Mais um para brincares. Leva-o!

Nas próximas linhas falar-vos-ei dos pilotos da Montanha Russa. Eles andam por aí nos nossos Oceanos. E com sorrisos de loucos, perseguem ondas gigantes, tal como o Sr. Medo os persegue de uma forma doentia.

Já não vão encontrar por aí todos esses viciados de adrenalina. Alguns já morreram. Sim, a Montanha matou-os! Essa put@ Russa leva caro quando o assunto é deslizar nas suas pernas longas. Sabe matar de prazer, tão bem como matar por matar. Às vezes nem prazer lhes dá e tira-lhes a vida de rompante. Sabendo que já deslizaram no seu corpo outras vezes, sente-se no direito de lhes cobrar o preço máximo por dívidas antigas. Assim mesmo, sem avisar. Zás…

1994 – Mark Foo, destemido surfista de Waimea, morre após uma queda numa onda de Mavericks, Califórnia. A comunidade do surf fica em choque.

1995- Donnie Solomon, de sorriso aberto, membro da Cruz Vermelha, coração de gigante, arrisca furar uma onda no limite, na casa de Foo em Waimea. Arriscou demais. Minutos antes, surfa a melhor onda da sua vida.

1997 – Todd Chesser, um verdadeiro gladiador do North Shore havaiano. Ninguém acreditava que com a sua preparação física pudesse morrer afogado. Um set gigante surpreendeu-o num reef longe da costa, mergulhou pela vida e desapareceu para sempre.

2001 – Jay Moriarity, o miúdo que aos 16 anos nos impressionou com um dos maiores wipe outs da História do surf, deixa-nos aos 22, na véspera do seu aniversário, numa lagoa das Maldivas onde treinava apneia, quem sabe a pensar na próxima descida na Montanha Russa.

2005 – Malik Joyeux, respeitado em todo o mundo pelas suas performances em Teahupoo, viu a perigosa onda de Pipeline enciumada e, num dia de ondas médias, ceifa-lhe a vida, levando-nos a pensar que as bancadas rasas são tão ou mais perigosas que as montanhas de água.

2007 – Peter Davi, surfista e pescador profissional. Conhecia o seu segundo habitat como ninguém. Morre como um herói, num dia em que as motas de água dominaram, os seus braços estiveram lá para as últimas remadas em Ghost Tree, Califórnia.

2011 – Sion Milosky, experiente big wave rider havaiano, perde a vida em Mavericks, após completar um drop incrível. A explosão da onda fê-lo desaparecer deste mundo.

Por último e sem seguir ordens cronológicas, Eddie Aikau, a maior lenda do surf de ondas grandes. Sabe-se que saltou de um barco em apuros ao largo das Ilhas Havaianas. Um salto no escuro em direcção a terra para pedir ajuda. Levou consigo uma lanterna e a sua prancha de surf que, tal como ele, tão bem conhecia aquelas águas sem donos. Desapareceu aos 31 anos de idade. Gosto de acreditar que descobriu uma onda secreta e hoje com quase 70, surfa sozinho no seu Jardim.

Neste parque de diversões podíamos deixar de vender bilhetes para a Montanha Russa. Evitavam-se algumas mortes. Mas, na certa haveria ainda mais mortes por não se poder andar nela. Morria-se de loucura e de tédio ao ver a ferrugem inundar os carris das descidas e dos loopings, mudos e surdos, sem gritos de excitação e de medo.

Uma Montanha Russa não é só para olhar. É, mais do que tudo, para descer, subir e voltar a descer. Mesmo que seja pela última vez…

JFM

Sobre o Autor:
João “Flecha” Meneses| Com mais de 20 anos de surf, “Flecha” enquadra dois adjectivos de respeito no surf, “underground” e “Soul” surfer. Originalmente local das ondas da Caparica, João tornou-se residente da Ericeira há mais de uma década e é um daqueles surfistas que não aceita insultos do “Sr. Medo”. Nos seus tempos livres é escritor de mão cheia e esta é a sua colaboração com a ONFIRE.

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