A culpa é dos surfistas… | By Pedro Soeiro Dias

publicado há 2 anos por 0

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Desde o primeiro dia que se sente algo mais do que apenas o dever cumprido, fadiga, suor, ritmo cardíaco… Há algo mais, sempre houve. Definiu percursos, moldou vidas e criou negócios. Este é um resumo frio, mas assertivo do caminho de muitos surfistas de sempre.

Desde o início da crise que recriou toda esta industria, que explorei o tema, não a filosofia inerente a esta actividade, até porque sou muito pouco dado a essas coisas, mas procurei respostas, argumentos que me indicassem como é possível que uma indústria, bem dentro da sua maturação, perde completamente a noção do seu mercado e de todos os pilares básicos de um negócio viável.

Apesar de ser assunto cansado e de não ter uma justificação única, até porque a este nível a complexidade estrutural e dimensão do negócio determina que todos os dados são poucos para ruir a pirâmide, ousei chegar a uma pequena e simplória conclusão, dura até – A culpa do estado da indústria é dos surfistas que trabalham na indústria.

Não pela técnica, a performance na água está melhor do que nunca; não pela emoção, a competitividade está ao rubro; não pela criatividade, cada vez há projectos mais interessantes e diferenciadores. Tudo isto define a condição de surfista, revela toda uma existência, impossível de explicar, mas claramente visível.

Volto a dizer que a culpa é nossa, e é nossa porque, de certa forma, não estamos disponíveis para ir mais além, não nos preparamos academicamente, o surf está sempre primeiro do que as responsabilidades, tornou-se sempre mais importante entubar mais uma vez do que ver o crescimento de um qualquer movimento urbano, recriamos projectos onde já existem os mesmos projectos porque queremos ter o pé na areia, elogiamos o nosso escritório na praia, quando os escritórios não são na praia, não queremos ser profissionais, porque já o somos surfando… a impreparação é gritante e temos uma tamanha preguiça pela responsabilidade, agarramo-nos a uma tal intangível ideia de uma vivência única de que apenas quem faz surf sente… É duro dizer isto, injusto talvez, mas palpável, fácil de provar.

Os resultados de outras marcas, com estruturas profissionais e muito pouco ligadas à arte das ondas, estão a ser gritantes num tão curto espaço de tempo. Companhias que sabem como se faz e definem como se faz. Estruturas onde a organização, formação, proposta de valor e acima de tudo a exigência está muito acima das empresas core do passado. Algumas empresas públicas core perceberam isso a tempo e colocaram em cargos estratégicos pessoas que não distinguem o tail do nose, e o que é engraçado nesta observação é que, de facto, não precisam de distinguir. Simplesmente, porque estamos unicamente a falar de negócio, mercado, produto, oportunidade, tudo elementos que se obtém da observação do mercado, de dados, comentários, conselhos, discussões que, curiosamente, podem ser alimentadas por surfistas, mas que porem nunca podem ter o ponto final. Simplesmente porque nunca será consistente a opinião.

Grande parte da culpa da redefinição deste mercado é dos surfistas e esta não é uma afirmação avulso, é lógica, profissional e sensata. E a justificação, para tamanha injúria, está no que referi anteriormente – o surf fornece uma qualquer substância aditiva, que adormece qualquer momento de discernimento, alienando da dureza de um mercado em constante mutação e que requer uma dedicação e resiliência, que muito pouco tem a ver com “feeling”, porque esse, às vezes, trai-nos..

Sobre o Autor:
Pedro Soeiro Dias | Individualista, enigmático, muito atento e crítico em relação a tudo o que rodeia. A convicção e a solidez com que defende os seus pontos de vista transmitem muitas vezes a ideia de arrogância.
Tem 35 anos e desde os 15 que tem prancha.
É realizador de formação e no início do século ainda explorou a indústria, mas a celeuma do mercado, fez com que se dedicasse à escrita.
As viagens marcaram o seu processo de maturação e, recentemente, viajou até ao Hawai, cumprindo um dos seus sonhos.
Vive, trabalha e surfa na Ericeira.
A paixão por “marcas” aliada a traços de personalidade que lhe conferem extrema sensibilidade para o marketing redesenharam o seu percurso profissional. Hoje é um marketeer apaixondado.

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