Competiçao
Guedes e Rocha Campeões Nacionais
Terminou há umas horas a última etapa do circuito nacional, o Maresia Nazaré Surf Pro, e temos novos campeões nacionais, João Guedes e Joana Rocha!
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Hoje de manhã, à medida que caminhava para o palanque principal, distinguia ao longe três surfistas de cabelo comprido e licra vestida a aquecer. O campeonato ia arrancar com as meias finais femininas e na areia sentia-se aquela tensão títpica dos momentos importantes, afinal estavam dois títulos nacionais por decidir.

A primeira meia-final feminina poderia de imediato, ou não, atribuir um título nacional uma vez que Joana Rocha precisava "apenas" de passar o heat para ser campeã. Mas para isso tinha de derrotar pelo menos uma das duas surfistas que estavam com ela na água, Carina Duarte ou Francisca Sousa. O mar estava sem vento nenhum e as ondas, apesar de mais pequenas que ontem, bastante mais perfeitas. Elas entraram não para a direita da falésia, uma vez que aí já não havia ondas, mas sim para o meio da praia, um pico onde esquerdas e direitas de um metro rebentavam com o power típico do mar nazareno! Assim que a buzina tocou não foram precisos mais de três minutos para o título ficar, praticamente, decidido, uma vez que Joana abriu logo com uma onda muito forte. Uma esquerda perfeita, talvez a melhor onda que apareceu neste heat, apareceu e no sítio certo estava Joana Rocha. Mais uma vez Joana usou a tática que lhe garantiu a situação em que hoje se encontrava e que deu resultado em pelo menos 90% das vezes este ano, apanhar logo uma onda boa no início do heat e tentar garantir uma nota forte. E foi mesmo isso que fez mais uma vez. Depois do drop, deu um bottom e uma primeira paulada/rasgada no lip, seguido de um novo bottom e uma nova combinação de paulada /rasgada, duas manobras que foram executadas com velocidade e power e que, muito justamente, premiadas com um 8.5. Joana colocava assim muita pressão nas adversárias ao mesmo tempo que libertava muita pressão de cima de si. No momento em que ouviu a nota, Joana deu um berro de alegria que se ouviu cá fora (e quem não o faria!) não conseguindo conter a adrenalina de estar cada vez mais próxima do título. A verdade é que durante todo o restante heat, Joana Rocha nunca esteve em situação de poder perder pois Francisca Sousa andou muito perdida no line-up, pontunado apenas um 3.17 numa esquerda onde deu duas rasgadas. Francisca deixou passar uma direita excelente que, caso a tivesse surfado bem, poderia ter apimentado esta meia final, mas, como todos sabemos, dar palpites cá fora é sempre mais fácil. Carina Duarte, cujo surf, principalmente de frontside, é cada vez mais new school (só tem mesmo de começar a completar essas manobras) ficou a precisar de uma nota de 7 pontos para ficar em primeiro, nota essa que teria certamente tido caso tivesse entrado numa manobra de junção onde meteu o tail todo para a frente e agarrou um dos rail com a mão (isto depois de ter dado uma boa rasgada na onda). Esta manobra, que "cheira-me" que Carina não entrou pois já a terminou mesmo em cima da areia, foi, para mim, a melhor manobra de uma surfista feminina durante todo o campeonato, e Carina é capaz de ser neste momento a surfistas que de frontside apresenta o surf mais moderno e, como muitas vezes dizemos na forma do maior elogio possível, com manobras "à homem"! Joana Rocha, numa outra esquerda, ainda deu mais umas rasgadas para fechar o heat com um score total de 12.60 (8.5 e 4.10) e sair da água com o seu primeiro título de campeã nacional. Parabéns Joana!

Mas ainda havia uma segunda meia-final feminina para disputar e um título de campeã do Maresia Nazaré Surf Pro e apenas mais dois lugares na final. Esses lugares foram ocupados por Francisca Santos e Filipa Prudêncio, ficando Rita Brilhante em terceiro. Francisca Santos optou por ficar no outside e esperar os sets para mostrar o seu surf enquanto Filipa Prudêncio "andava" pelo inside a apanhar o máximo de ondas que conseguia para garantir as suas notas. Francisca, talvez por ter perdido a hipótese de ser campeã com a vitória de Joana no heat anterior, parecia estar com um surf menos esforçado não entrando em muitas manobras que para ela são básicas mas fez o suficiente para ficar em segundo lugar. Filipa mostrou a sua garra característica e como o seu surf voltou a lembrar o de Bede Durbdige no sentido em que esta surfista quando tem uma licra de competição vestida não cai em nenhuma manobra, tal como o surfista australiano.

Enquanto Joana Rocha celebrava o seu título nacional, recebendo os parabéns e respectivos abraços e beijinhos de todos os presentes na praia, Justin Mujica e Alexandre "Xaninho" Ferreira estavam na água à espera do início do primeiro heat dos quartos-de-final masculino man on man, mais um fundamental mas desta vez para o título nacional masculino. Xaninho, no geral, surfou bem o heat mas apanhou um Justin Mujica que a cada onda que fazia aumentava a sua performance. Uma das suas melhores ondas, um 7.27, uma direita, Justin arrancou, deu uma paulada na espuma para passar a secção e, na junção, deu um reentry/layback daqueles que quando o homem se levantou ainda estava a cair água que tinha enviado para o ar com a manobra, um demonstração de surf daquelas que são raras de se ver excepto se estivermos a olhar para alguns dos melhores do mundo. Esta é provavelmente uma afirmação "forte" para alguns mas para mim mais que justa! Xaninho acabou por ceder um pouco à pressão caindo em manobras fundamentais para poder dar a volta ao heat, principalmente numa direita em que depois de uma rasgada deu um rasgadão mesmo debaixo do lip a mandar também umas boas litradas de água para o ar mas mesmo no último momento da manobra não se aguentou. Para Xaninho ser campeão, João Guedes não podia chegar à final por isso, como devem imaginar, tensão, pressão e emoção eram ingredientes que não faltavam nas areias da Praia do Sul.

Sem querer tirar mérito aos restantes competidores e heats, a verdade é que este campeonato teve três surfistas na mira de todos, os candidatos ao título e Justin Mujica, pelo nível de surf que o homem apresenta. Claro que foi bom ver Kikas e Zé Ferreira, dois juniores e colegas de turma, a batalharem um contra o outro no segundo heat dos quartos, e ver o Zé, na última onda do heat e a menos de um minuto do final, sair da água para ouvir que tinha conseguido a nota que precisava. De certeza que esta noite, durante a entrega de prémios do circuito, já irei saber as reacções menos competitivas de ambos por o Zé ter dado, finalmente e num momento importante, na "pá" do Kikas... Mas isso já é notícia para amanhã... ou talvez não! Vasco Ribeiro e Miguel Blanco, os outros dois juniores nos quartos, perderam para David Luís e João Guedes, respectivamente, nos heats menos renhidos desta fase.

Chegávamos ás meias finais e para ajudar o sol estava ao rubro obrigando muitos a despir casacos e camisolas para ficarem na areia com a bela da t-shirt, o que foi uma estreia neste três dias que passámos na Nazaré, uma terra que além das ondas poderosas, é também caracterizada pelo frio extremo e, como pormenor delicioso, pelas simpáticas senhoras nazarenas que usam setes saias e que sempre que passas por elas te perguntam se queres alugar um quarto.

Na primeira meia-final, Justin simplesmente dizimou o júnior Zé Ferreira. Justin apanhou as melhores ondas é verdade, mas para fazer notas acima dos oito pontos é necessário surfar muito. Justin deu pauladas, tubos, carves full rail e com tail para a frente, encadeou as manobras, surfou com a sua velocidade característica, fez ondas onde apenas deu um manobrão de "gente grande" para receber notas de 7 pontos e... saiu da água vermelho que nem um tomate. O homem não parou, e nessa altura era fácil perceber que Justin era o potencial vencedor da etapa. Zé surfou bem mas quando ouviu que precisava de uma combinação perdeu a confiança que o levou até aqui desistindo de algumas manobras. Mas não se pode levar o grommet a mal uma vez que não deve ser fácil virar um heat contra um homem "endiabrado"!

A segunda meia-final deixou todos os que estavam na praia sem tirar os olhos da água. Guedes precisava de vencer para ganhar o seu primeiro título nacional e com ele o Norte do país, mais concretamente o Porto, ter pela primeira vez um "campiãouuueee"! Guedes defrontou David Luís mas começou o heat a cair em manobras que não deveria cair, mais uma vez a tensão natural do momento diria. Mas, assim que deu uma rasgada e um floater de backside (um 6.5) com a sua segurança e fluidez habitual, Guedes entrou na sua zona de o e não cometeu mais erros. David Luís não conseguiu apanhar ondas que permitissem mais de uma manobra enquanto Guedes ia crescendo de forma aplicando rasgadas, pauladas e floaters de backside. João Guedes não deu nenhum manobrão de encher o olho neste heat mas surfou o suficiente para o passar e ser o novo campeão nacional. Parabéns Guedes!

A final acabou por ser mais uma razia de Justin Mujica que novamente em duas direitas não deixou uma única parede da onda com vida, tal a agressividade do seu surf, deixando João Guedes a precisar de uma combinação de 18.86 pontos para vencer. Guedes, no fim do heat, ainda apanhou uma esquerda onde, como primeira manobra, mostrou que se tivesse apanhado as ondas certas a história desta final poderia ter sido outra. Depois do bottom, Guedes deu uma paulada a tirar o tail e a terminar com o tail quase na direcção da areia, enquanto agarrava o rail, para "destorcer" a manobra na perfeição e encaixar um roundhouse mas que não completou, acabando a onda por morrer logo de seguida. Uma daquelas manobras "à lá WQS" que fez a comitiva da areia aplaudir assim como o próprio Justin que assistiu a esta manobra na primeira fila.

Justin saiu da água feliz, e mais uma vez vermelho que nem um tomate, e foi logo recebido com uma bela cervejola, oferta da ONFIRE, para celebrar a sua vitória. Parabéns também ao vencedor da última etapa do nacional, o Maresia Nazaré Surf Pro, Justin "Manito" Mujica.

Antes da final dos homens e da Expression Session, ganha por Zé Ferreira com um aéreo que deu direito a 300 euros e a pagar as bebidas ao staff da OF esta noite, realizou-se também a final feminina. Francisca Santos voltou a mostrar o seu surf sagrando-se campeã da etapa (parabéns!). Em segundo ficou Filipa Prudêncio, o seu melhor resultado no nacional este ano, a precisar de um 4.41 para vencer. Carina ficou em terceira a precisar também de uma nota méida, um 4.88. Joana Rocha, já com o título nacional no bolso, ficou em quarto mas de certeza que mais do que feliz da vida!

E agora, circuito nacional, só mesmo para o ano!

NB

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